À espera de obras há 3 anos, asilos filantrópicos de BH têm falhas estruturais e casos de Covid-19

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Mais da metade dos idosos que estão nas ILPIs são de grau de dependência máximo — Foto: Reprodução TV Globo

Belo Horizonte registrou 68 focos de Covid-19 nas 224 Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) da cidade. O número preocupa, especialmente nos 24 asilos filantrópicos que são conveniados à prefeitura, onde obras de melhorias são aguardadas há 3 anos. Pelo menos 60% dos idosos que vivem nesses locais são de alto grau de dependência e vulnerabilidade.

As condições precárias das ILPIs conveniadas à Prefeitura de Belo Horizonte acenderam o alerta do Ministério Público ainda em 2017. Uma recomendação foi emitida pela Promotoria do Idoso, determinando que o Executivo municipal realizasse obras de melhorias da acessibilidade e das condições sanitárias.

Passados três anos, a única ILPI que já teve obras concluídas é a Paulo Fagundes, na Região do Barreiro, que recebeu investimentos de R$ 320 mil para limpeza, capina e construção de muro. Há previsão de investimentos de R$ 4,2 milhões para adequação e manutenção corretiva nas outras unidades. As obras de 12 delas chegaram a ser licitadas, mas não saíram do papel por causa da Covid-19, segundo a prefeitura.

“Naquela época tínhamos problema de desinteresse. A prefeitura acabou conseguindo licitar todas, mas aí veio a pandemia e agora será preciso aguardar o final disso para retornar. Os problemas são de acessibilidade, de melhoria da higiene. Na realidade, estes imóveis não são adequados para ILPI”, afirma o procurador e coordenador estadual de Proteção do Idoso, Bertoldo Mateus de Oliveira FIlho.
 
Visitas estão suspensas nestes locais para evitar a disseminação do novo coronavírus — Foto: Cedoc/EPTV

Com o avanço da Covid-19, a preocupação com os idosos e a falta de condições destas estruturas aumentou. “No começo, fiquei temeroso que houvesse uma grande tragédia. Mas tem se mantido sob controle. Por um lado, tem lar de idosos grande, que a gente tem preocupação maior, porque o número é maior de internos, convivendo juntos, dividindo espaço. E tem os pequenos demais, em que a proximidade entre os internos é inevitável”, disse o procurador.

A preocupação tem fundamento, segundo o geriatra do Hospital das Clínicas de Belo Horizonte, Jáder de Freitas.

“É impossível que não fiquem aglomerados nestas instituições, com muita gente entrando e saindo da casa todos os dias. O cuidador, às vezes, trabalha em mais de um lugar numa escala de 12 por 36 horas. Que o vírus vai entrar nas ILPIs, a gente não tem dúvida. Foi assim na Noruega, Canadá, Reino Unido. Ele vai entrar, mas, uma vez que entrou, não precisa causar o mesmo estrago que causou no resto do mundo”, diz o médico.

Pelo levantamento do Ministério Público, dos 714 idosos residentes nestes asilos conveniados, 52 tiveram teste confirmado para Covid-19, o que representa pouco mais de 7%. Quatro morreram. Trinta e um trabalhadores também tiveram a doença.

Segundo o MP, a instituição com maior número de contaminados foi o Lar de Idosos Clotilde Ramos Martins, com 29 idosos e 5 funcionários que testaram positivo pela doença. Vinte e sete residentes se recuperaram e dois morreram. No Lar Dona Paula, 11 residentes e sete funcionários testaram positivo. Não houve mortes.

“A literatura prevê que, diante de surto da Covid-19 em ILPI, tenha 25% a 30% dos idosos morrendo. O que estamos vendo é menos de 10% de mortalidade”, diz o geriatra.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, é considerado foco de Covid-19 “todos os locais onde são confirmados a presença de três casos ou mais casos suspeitos de COVID-19 e que seja clara a relação temporal entre eles, ou a presença de um caso com RT-PCR detectável para Sars-Cov-2”.

Monitoramento

Nas Instituições de Longa Permanência que registram casos, os idosos contaminados são isolados e todos são testados. — Foto: Divulgação / FIEMG

Para evitar que os números sejam ainda maiores, Jáder Freitas conduz um projeto do Hospital das Clínicas, em parceria com a prefeitura de Belo Horizonte, que monitora 96 ILPIs privadas e filantrópicas de Belo Horizonte. Segundo o geriatra, foram escolhidas para participar do projeto as unidades em que há maior dificuldade para se manter o isolamento entre os idosos e que, portanto, podem oferecer maior risco sanitário.

Cerca de 1.600 idosos são acompanhados por Jáder e outros grupos de geriatras e enfermeiros do hospital, que recebem informações e discutem os casos com os cuidadores dos idosos e médicos das unidades de saúde que já acompanham os pacientes.

Caso algum apresente sintomas, é encaminhado para a Unidade de Acolhimento Provisório do Idoso (UAPI), criado pela prefeitura para fazer este isolamento por 14 dias e para a realização do teste RT-PCR. Se tiver resultado positivo, todos os demais residentes e funcionários da casa também são testados.

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, a UAPI fica ao lado de uma unidade de urgência e conta com equipe multiprofissional composta de cuidadores, técnico de enfermagem, enfermeiro, médico, psicólogo e assistente social, com funcionamento durante 24 horas.

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