Delegado diz que clínica que fez cirurgia plástica em jovem que morreu em BH já é investigada por homicídio culposo em outro caso

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Edisa de Jesus Soloni morreu horas depois de fazer cirurgia em BH — Foto: Reprodução/Câmera de segurança

A Polícia Civil foi à clínica de estética Belíssima, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, na manhã desta terça-feira (15), para recolher documentos e prontuário médico da cabeleireira Edisa de Jesus Soloni, de 20 anos, que morreu horas depois de fazer uma cirurgia plástica no local. Os investigadores também coletaram as imagens de circuito que mostram a movimentação na clínica na última sexta-feira (11), dia da cirurgia plástica.

O delegado Vinícius Dias, responsável pelo inquérito que apura as circunstâncias da morte de Edisa, disse que informações preliminares demonstram que a clínica “não tem determinados alvarás de autorização” e que possui histórico de possível homicídio culposo em 2011.

“O homicídio de 2011 está em fase final de investigação. Também estamos investigando outras reclamações de pacientes que não morreram, mas tiveram complicações durante os procedimentos. Queremos saber se teve negligência por parte do médico atrelado à falta de estrutura hospitalar”, disse o delegado.
 
 
A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) instaurou inquérito policial para apurar as circunstâncias da morte da paciente — Foto: Arquivo Pessoal/ Silvana Mota pereira

Sobre Edisa, o delegado falou que até o momento se sabe que ela entrou na clínica na sexta-feira para fazer o procedimento cirúrgico, foi atendida e agora cabe à investigação fazer a análise do risco cirúrgico que foi realizado na paciente.

“A clínica assume a responsabilidade ou não deste risco? Caso fique comprovado que sim, o médico pode ser responsabilizado por homicídio e ter impedimento das atividades profissionais, já a clínica pode ter as atividades suspensas. A clínica recebe pacientes de risco e precisa ter estrutura apropriada para atender qualquer complicações durante as cirurgias”, contou Dias.
Ainda de acordo com o delegado, a PC continua no local recolhendo provas, que estão sendo mantidas em sigilo até a finalização das investigações.

Delegado Vinícius Dias está à frente das investigações — Foto: Reprodução/TV Globo

Médico não era especialista em cirurgia plástica

A clínica de estética Belíssima disse ao G1, nesta terça-feira (15), que “o médico cirurgião plástico responsável pelo procedimento é membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e exigiu todos os exames pré-operatórios, que mostraram total condição da paciente em passar pelo procedimento”.

A reportagem procurou a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), que informou que o médico “concluiu estágio (equivalente a residência médica), mas não possui o título de especialista“.

“Quando ele conclui a residência ou estágio, ele deve prestar o Exame para Título de Especialista, realizado pela SBCP e AMB e ser aprovado. Assim, ele obtém o RQE – Registro de Qualificação de Especialização, um registro complementar que os Conselhos emitem e que garante que, além de apto a exercer a Medicina, o médico também é especialista em alguma área”, explicou a entidade.
 

Sobre ele ser membro da sociedade, a informação foi a seguinte: “ele é membro aspirante da SBCP, ou seja, não é membro especialista”.

A entidade de cirurgiões plásticos explicou que, “de acordo com a lei brasileira, o médico não é obrigado a ter um título de especialista para realizar procedimentos como a cirurgia plástica, por exemplo, mas assume a responsabilidade pelo procedimento”.

Em nota, o Conselho Regional de Medicina (CRM) informou que “tomou conhecimento por meio da imprensa de óbito de paciente ocorrido após cirurgia, e que iniciará os procedimentos regulamentares necessários à apuração dos fatos”.

Clínica nega irregularidades

A clínica Belíssima disse que a causa da morte da jovem foi embolia pulmonar e que todo socorro foi prestado em tempo hábil (leia as notas na íntegra ao final da reportagem).

A assessoria da clínica enviou ao G1 documentação que comprovaria que o local tem autorização para realizar este tipo de cirurgia. Em nota, disse que a clínica arcou com o deslocamento de Edisa, consciente, para o hospital Felício Rocho.

“Não houve demora no atendimento”, disse o comunicado da clínica.

Segundo a empresa, a paciente entrou na sala de cirurgia às 14h de sexta-feira (11) e a operação durou cerca de uma hora e meia. Edisa começou a passar mal às 18h no quarto. Foi levada para o hospital às 19h e morreu na madrugada do sábado (12).

A assessoria da clínica respondeu que o risco cirúrgico foi liberado por um cardiologista e um anestesista e que a paciente não teve complicação cardíaca. A clínica também negou que ela tenha passado por três cirurgias, como disse familiar da jovem.

“Alguém ligado à paciente está falando em três cirurgias. Isto não procede. Ela fez lipoescultura. A Belíssima é um hospital-dia e tem estrutura para o tipo de procedimento que a paciente passou”, disse o comunicado da clínica.
 

A assessoria de imprensa da clínica detalhou que “hospital-dia” é um “tipo de estabelecimento médico autorizado para exercer atividades de atendimento hospitalar, exceto pronto-socorro e unidades para atendimento a urgência. Atua com centros cirúrgicos e está autorizado a fazer o tipo de cirurgia que ela fez. No caso de ter uma intercorrência médica , uma urgência, o hospital-dia tem como obrigação encaminhar para um hospital de pronto-socorro. Que foi o que foi feito”.

G1 questionou sobre a declaração do delegado, de que a clínica é investigada por morte em 2011, e aguarda resposta. Também foi questionada sobre o médico não ser especialista em cirurgia plástica.

Amigos e parentes de Edisa na porta da clínica — Foto: Reprodução/TV Globo

Leia a íntegra das notas da clínica

Primeira nota:

“O Hospital Dia esclarece, primeiramente, que possui alvará da Secretaria Municipal de Saúde para a realização de cirurgias plásticas, o que pode ser comprovado por meio de documentação. Inclusive, o local funciona como um Hospital – Dia, tendo toda a infraestrutura necessária para internações de até 24 horas.

O médico cirurgião plástico responsável pelo procedimento é membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e exigiu todos os exames pré-operatórios, que mostraram total condição da paciente em passar pelo procedimento.

Diante das complicações inesperadas, todas as medidas necessárias foram realizadas em tempo hábil, transferindo a paciente consciente e alerta para o Hospital Felício Roxo [Hospital Felício Rocho].

 

Informamos também que qualquer cirurgia, de pequeno ou grande porte, envolve risco cirúrgico, mesmo com pacientes totalmente saudáveis.

Prestamos nossas condolências aos familiares e nos colocamos à disposição para quaisquer outros esclarecimentos.”

Segunda nota:

“Lembrando que a causa da morte foi embolia pulmonar e que todo o socorro foi prestado pela Belíssima que arcou com deslocamento para um hospital particular e chamou a ambulância para prestar o socorro necessário.

Não houve demora no atendimento.

Segundo dados registrados na clínica a paciente entrou na sala de cirurgia às 14 horas de sexta-feira, a operação durou 1 hora e 30, começou a passar mal às 18 horas no quarto. Foi levada para o hospital às 19 horas e veio a óbito no hospital na madrugada de sábado.”

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