Ideologia e utopia (por Paulo Delgado)

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Eleitor é utopia, pesquisa é ideologia. O país está soterrado pela overdose de pesquisas de encomenda. A síntese do fato consumado é: a eleição é de rejeição, não de escolha e já acabou. Certeza apocalíptica sem parâmetro científico. Melhor ter prudência para ser eleitor, não rejeitador, o inocente útil da polarização.

Tempos bizarros de um situacionismo e oposicionismo extraviadores da utopia e de gente poderosa manipulando o eleitor pela ideologia. Gurus da desordem – amantes de si próprio, fanfarrões, sedentos de protagonismo, desrespeitadores, feroz sem autodomínio. Tempos comandados por interesses escarnecedores, inaptos para o sonho, movidos pelo dinheiro fácil obtido no capitalismo de cassino que engorda gado confinado.

Conviver com o conflito é a política da liberdade.  E da democracia vacinada contra o alto custo das boas e das más intenções e a injustiça não sendo fruto de um mau sistema de justiça. O erro em política, no judiciário e no elitismo da economia merecem morrer, mas não precisam ser executados se as instituições funcionam.  A teoria econômica da democracia deve abranger uma classe plural da maioria que defenda que o embate de ideias se dê dentro da lealdade e igualdade fundamental de acesso a direitos, justiça e oportunidades.

Por que a necessidade de reunir forças sectárias e exclusivistas para a defesa de direitos das minorias e reconhecimento da diversidade se precisam do voto da maioria? Direitos sociais não são loja de departamento. Esforços exagerados e discursos excessivos visam fidelizar garantidos e produzir estatísticas de desigualdades em tudo para dar fundamento a posições de grupos e aumentar a pressão do Estado por poder arbitrário. A burocracia costuma fazer submergir o estado social, não gosta de ser incomodada, faz seus próprios procedimentos e resolve sua incompetência discursando, protelando ou arquivando o individual como impessoal.  Se os polos opostos não conseguem se aventurar mais na moderação, precisam da polarização pelo medo do favoritismo frágil.

Mais crise, mais democracia, longevidade exige previdência, necessidade, mais oportunidade. Não como políticas babás e manipuladoras de sentimentos humanos. Mas como virtude, estimulo à autodeterminação, sem psicodrama e instrumentos de britador paternalista.

Os ingredientes do consenso liberal-progressista, esquerda- reformista e social-democracia continuam majoritários e relacionados com a defesa da cidadania e a prosperidade econômica para todos. O sectarismo é um lugar comum esclerosado, força histórica que felizmente perdeu seu ímpeto no mundo civilizado, infelizmente ainda forte no Brasil. Devemos caminhar para uma construção natural de governo que conte com a contribuição destas três forças históricas. Forças capazes de entender o conflito social moderno sem a arrogância do poder do “tudo em um”, resquícios do despotismo e de um passado que não passa.

Não se combate inimigo com suas ideias, linguagem e métodos. Provimentos para um estado previdenciário, um crescimento sem desemprego, distributivista e justo não virão sem prerrogativas adequadas e razoáveis à sua defesa. E lideradas por alguém independente de grupos de pressão. Presidência é liderança, não palco de puxador de samba enredo.

A sabedoria do eleitor cauteloso espera para decidir, analisa para escolher. Movimenta o prisma da fúria para o da indignação, pondera sobre o prato feito conhecido. E está aberto a experimentar novos sabores, com o tempero da utopia e não da ideologia.

 

PAULO DELGADO, Sociólogo e Cientista Político foi Constituinte de 1988 e exerceu mandatos de Deputado Federal até 2011. É Conferencista e Consultor.

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