Falta de ginecologista dificulta a vida de grávidas na capital

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Palmares. Grávida de 13 semanas, Andreza Oliveira diz que não achou ginecologista em centro de saúde

Nas três consultas desde que iniciou o pré-natal, Andreza Oliveira, 36, grávida de 13 semanas, encontrou um profissional diferente a cada atendimento, e nenhum deles era ginecologista. A situação preocupa a dona de casa, que está na terceira gestação e já foi atendida por enfermeiros e clínico geral. Isso ocorre porque o posto de saúde do bairro Palmeiras, na região Oeste da capital, está sem o profissional, assim como acontece em outras 21 unidades básicas de saúde da cidade.

O número equivale a 14,5% dos 151 postos de saúde da capital. Por conta disso, algumas gestantes precisam se deslocar para outros bairros para conseguir atendimento. Em alguns casos, as pacientes nem tentam marcar consultas. “A gente fica sem referência, não tem continuidade. Apesar de ser minha terceira gestação, tive sangramentos nessa e fico assustada, com medo de que algo aconteça”, explica Andreza, que está desempregada e seguirá indo ao posto.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMSA), que confirma a falta de ginecologista em 22 postos de saúde de BH, a capital segue o Protocolo de Pré-natal e Puerpério, definido pelo Ministério da Saúde. Segundo a pasta, o cuidado da gestante deve preferencialmente ser realizado pela Equipe de Saúde da Família (ESF), composta por médico generalista, enfermeiro, técnico em enfermagem e agentes comunitários de saúde. Contudo, conforme o órgão, a avaliação do médico ginecologista pode ser necessária em algumas situações, após avaliação do caso. Entre algumas previstas estão aquela em que a gestante tem sinusite, bronquite e anemia.

“Caso a mulher queira fazer o acompanhamento com um médico ginecologista, ela pode procurar o centro de saúde mais próximo, mas o médico da equipe de saúde tem competência para tratar esses quadros. A grávida não fica desassistida”, afirma a coordenadora de atenção à Saúde da Mulher da SMSA, Fernanda Azeredo Chaves.

Segundo Fernanda, em casos de gestantes que têm algum risco, se houver carência de ginecologista no centro de saúde no qual ela é atendida, o acompanhamento será feito pelo obstetra da unidade básica mais próxima.

No entanto, segundo o presidente da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais, Carlos Henrique Mascarenhas, a falta desse profissional pode ser um risco para as gestantes. “Pode ter atraso em diagnósticos, dificuldade no acesso a exames, não tratamento de patologias no momento adequado. Toda patologia tem seu grau de complicação. O médico obstetra é o profissional com mais condições para fazer esse atendimento, pois ele lida diariamente com isso”, destaca.

Salário mais baixo é um dos empecilhos, afirma associação

No Centro de Saúde São José, na Pampulha, segundo funcionários, o ginecologista se aposentou há três anos, e a vaga foi preenchida somente neste ano. Contudo, a médica ficou no local apenas por quatro meses porque passou em um concurso, e o novo salário seria melhor. Segundo o presidente da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig), Carlos Henrique Mascarenhas, a remuneração é um dos empecilhos para o interesse dos especialistas pela rede SUS-BH.

De acordo com a Prefeitura de Belo Horizonte, a remuneração média de um ginecologista vai de R$ 8.498 a R$ 9.093, sem os benefícios, para 40 horas semanais, dependendo da classificação do centro de saúde onde o profissional está atuando. Já a tabela defendida pela Federação Nacional de Médicos prevê que os profissionais recebam R$ 14.134,58 para uma jornada de 20 horas semanais.

“A infraestrutura precária e a carência no acesso a exames e procedimentos também desmotivam os profissionais. O sistema todo fica bastante vulnerável e é um círculo vicioso”, ressalta Mascarenhas.

“Se a pessoa tiver condições, já aconselho a marcar na rede privada”, desabafa uma funcionária do Centro de Saúde São José. Atualmente, de acordo com a PBH, a Rede SUS-BH tem 108 ginecologistas que podem atuar em mais de uma unidade, sendo 129 centros de saúde que contam com esse tipo de especialista.

Saiba mais

Profissionais. Segundo a SMSA, desde 2017 já foram contratados 1.063 médicos para atuar em toda a Rede SUS-BH, sendo 22 ginecologistas.

Nomeados. O último concurso feito pela PBH para a contratação de médicos foi em 2014. O certame foi homologado em 14 de junho de 2016. Dos profissionais aprovados, a PBH já nomeou 537.

Concurso. Está previsto para o ano que vem um novo concurso. As especialidades e as vagas serão definidas na elaboração do edital.

PBH. Segundo a prefeitura, a ausência de ginecologistas em alguns postos de saúde não impede o acompanhamento do pré-natal.

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