Reclamações em BH por falta de trocador cresceram 1.300%

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Problema. Em novembro, falta de agente de bordo em ônibus foi motivo de 372 reclamações de usuários

A insatisfação dos usuários do transporte coletivo de Belo Horizonte com a ausência do trocador em horários em que o funcionário é exigido por lei pode ser constatada em números. Nos últimos cinco meses, as queixas nos canais de atendimento da Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans) aumentaram continuamente, passando de 27, em junho, para 372, em novembro: uma alta de 1.300%.

A explosão de reclamações no mês passado demonstra o incômodo de quem utiliza o serviço com a falta do agente de bordo, como O TEMPO tem mostrado nesta semana. Ainda assim, segundo passageiros, as queixas poderiam ser em número maior, pois muitos deles não conseguem registrar a reclamação e, quando conseguem, acabam não tendo retorno.

A servente de limpeza Elci de Sousa, 54, que usa o serviço todos os dias, sabe bem como a ausência do trocador dificulta o trabalho de motoristas e atrasa a vida dos passageiros. “O 30 (Estação Barreiro/Centro) só anda sem cobrador. Na última quinta-feira, o motorista teve que liberar manualmente a roleta, e isso atrasou a viagem. O povo queria bater nele. Decidi reclamar, coitado”, lembra. No entanto, ela não conseguiu registrar a denúncia. “Liguei para o 156 do meu celular, do meu serviço e até do orelhão, e nada”, lamentou, acrescentando que a ligação não era completada.

Já a designer de sobrancelhas Iasmine de Araújo, 31, conseguiu registrar uma reclamação, mas continua insatisfeita. “O 4113 (Bom Jesus/Belvedere) não tem trocador há muito tempo. Fui reclamar no 156, e me pediram dois meses para apurar. Não recebi uma satisfação. Um absurdo”, afirmou a usuária.

Sem fiscalização

Um agente da BHTrans, que pediu para não ter o nome publicado, afirmou à reportagem que a prefeitura não se esforça para apertar o cerco às empresas que circulam sem o agente de bordo fora dos horários permitidos. “Não existe força-tarefa. O fiscal faz o que ele consegue. Se ficam dois em uma estação como a São Gabriel, por exemplo, de onde saem uns cem carros sem trocador por hora, não temos nada a fazer”, afirmou.

A BHTrans informou que 506 agentes são aptos para aplicar multas a coletivos flagrados sem o cobrador. Disse ainda que o efetivo é dividido em turnos e desempenha funções diversas relacionadas ao trânsito e ao transporte na capital e que o número de agentes dedicados especificamente a essa função varia conforme a demanda. A empresa não se posicionou sobre a dificuldade da usuária que tentou registrar reclamação pelo 156 nem sobre o prazo solicitado pelo atendimento do mesmo canal.

Os usuários do transporte podem fazer reclamações pelo telefone 156, pelo site da prefeitura e nos postos presenciais.

Passagem deveria ser R$ 3,45, diz estudo

A poucos dias da abertura da chamada “caixa-preta” da Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans), o movimento Tarifa Zero apresentou nesta terça-feira (18) um estudo que mostra que a passagem de ônibus na capital deveria ser R$ 3,45, R$ 0,60 (15%) a menos do que os R$ 4,05 cobrados hoje. Só no ano passado, as empresas teriam lucrado indevidamente R$179 milhões.

O levantamento mostra que, se uma pessoa usou o transporte coletivo duas vezes por dia durante toda a semana no ano passado, o prejuízo teria sido de R$ 436,80. O estudo foi protocolado na Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), e uma audiência com o prefeito Alexandre Kalil foi requisitada.

Segundo o integrante do movimento André Veloso, a análise começou no início deste ano, e as informações foram obtidas na BHTrans por meio da Lei de Acesso à Informação. Para a análise dos dados, o grupo teve a assessoria do economista e ex-presidente da empresa João Luiz da Silva Dias. “Hoje a tarifa é indexada à inflação, e isso significa que, se a inflação for de 10%, e as empresas cortarem 20% dos cobradores e 30% das linhas, a tarifa aumenta 10% do mesmo jeito”, afirma Veloso.

No entanto, para se chegar ao preço de R$ 3,45, o estudo do Tarifa Zero usou a metodologia Geipot, que leva em conta gastos variáveis e fixos das empresas. Veloso diz que até 2007 a PBH refazia a planilha anualmente. A partir de 2008, a tarifa passou a ser ajustada a partir de uma planilha fixa somada à inflação.

Sem comentar o estudo por não ter tido acesso a ele, o consultor em transportes e trânsito Silvestre de Andrade considera que o contrato entre a BHTrans e as empresas de ônibus deve ser mantido, mas a prefeitura precisa fiscalizar. “Fazer outra planilha é inventar outra regra”, diz. Já o especialista Marcio Aguiar afirma que é preciso haver um diálogo entre movimento e governo.

A PBH informou que está fazendo uma auditoria nas contas da BHTrans e que o resultado será apresentado em breve. O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de BH informou que aguarda a auditoria. (Aline Diniz)

Saiba mais

Reclamações

Segundo a BHTrans, em julho deste ano, o órgão recebeu 27 reclamações de usuários por falta de trocador. Em agosto foram 124; em setembro, 207; em outubro, 317; e em novembro, 372.

Outras queixas

Em todo o ano, foram 7.068 reclamações, sendo que os três principais motivos foram descumprimento de ponto de embarque e desembarque (2.099); comportamento inadequado do operador (1.877); e descumprimento de quadro de horário (1.290).

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