Dia do Abraço: pesquisas apontam benefícios do gesto, suspenso durante pandemia

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Dia do Abraço: Na foto, Jorge Uzon, da AFP, registra uma forma inusitada elaborada por uma canadense para poder abraçar sua mãe nos dias da mãe.

As sensações de aconchego, de segurança e de tranquilidade que os abraços podem transmitir são reconhecidos por qualquer um que já demandou pelo gesto. Em momentos de celebração e euforia ou de tristeza e reconforto, envolver-se nos braços de alguém é um ato que, diz a ciência, traz benefícios à saúde e ao bem-estar. Por ora, no entanto, os abraços não são recomendáveis e estão suspensos: a Covid-19 roubou das pessoas esse porto seguro ao tornar perigoso um contato tão íntimo e desejado.

É neste contexto que o Dia do Abraço é celebrado nesta sexta-feira (22).  Na data, impossível não lembrar de histórias como a do médico cirurgião Lucas Fragoso, 34, que, distante há duas semanas da filha de apenas 2 anos e da esposa grávida de oito meses, decidiu preparar uma surpresa para elas no Dia das Mães.

Escondido em uma fantasia de cachorro colocada sobre equipamentos de proteção, ele apareceu na casa da sogra, onde as duas estão abrigadas enquanto ele atua em hospitais na linha de frente para combate ao coronavírus em Divinópolis, na região Centro-Oeste de Minas Gerais. Finalmente pôde abraçar a filha que, no entanto, não sabia que era o pai quem estava ali.

“O gesto de afeto ancestral, importante para o reino animal e para a nossa humanidade”, como define a atriz Inês Peixoto, se tornou mais raro e cercado de cuidados. Em alguns lares, hoje, o abraço é antecedido por rituais de higienização. Neste momento, afinal, “o distanciamento social é o maior afeto que podemos ter uns pelos outros”, completa ela.

“Este é, provavelmente, o dia do abraço mais sem abraços do mundo”, comenta o poeta e cronista Fabrício Carpinejar, que se diz fã do gesto. “Para mim, é uma cadeira de balanço: quando abraço alguém, tem que ter movimento, ir de um lado para o outro. Não gosto daquele abraço de bater nas costas, a gente não é porta para ficar batendo”, brinca.

Enquanto o mundo tateia o futuro e busca antever como será a vida cotidiana quando a crise mais aguda provocada pela pandemia passar, o temor que abraços se tornem artefatos raros assombra.

“Eu fico pensando: que mundo é esse, que estamos deixando para os que vêm depois de nós, onde o abraço pode representar um gesto de perigo?”, questiona Inês. “A gente vai precisar, de uma certa forma, abraçar com os olhos, abraçar com as palavras, abraçar com os elogios”, sugere Carpinejar.

O que diz a ciência

O medo de se perder uma forma de comunicação tão potente a partir de um ato tão simples tem sua razão de ser. “Não é nenhuma novidade o conforto que um abraço pode nos trazer, todos já vivenciamos essa experiência e  pesquisas científicas demonstram porque os abraços trazem benefícios”, informa a psiquiatra e terapeuta cognitivo-comportamental Tammy Amaral.

O gesto libera hormônios ligados a sensações de bem-estar e tranquilidade, principalmente a ocitocina, conhecida como hormônio do amor. “Também ajuda a diminuir os níveis de cortisol e aumentar a liberação de endorfinas, o que pode, consequentemente, melhorar o sistema imunológico, diminuir a frequência cardíaca e a pressão arterial – principalmente em mulheres”, lista Tammy, que fez participação, na manhã desta sexta, no programa Bom Dia Super, da Rádio Super 91,7 FM.

O abraço permite uma sensação de segurança e conforto “quando reagimos a experiências dolorosas, pois diminui a estimulação de áreas cerebrais relacionadas ao medo”, cita a psiquiatra.

Abraçar a si mesmo

E, mesmo com a pandemia e respeitando as regras de distanciamento social, existe uma forma de se acalmar quando estiver tenso, preocupado ou com medo: basta dar-se um abraço, recomenda Tammy. “Sim, você pode abraçar a si mesmo!”, reforça.

No começo, pode parecer um pouco estranho, reconhece ela. Mas, garante, o nosso corpo vai responder ao gesto físico de calor e de cuidado assim como um bebê responde quando está seguro nos braços da mãe. “Pesquisas indicam que o contato físico promove a liberação de ocitocina e proporciona sensação de segurança. Então, por que não tentar?”, provoca.

Cada um vai encontrar um modo em que vai se sentir mais confortável, diz, complementando que “o importante é proporcionar a você mesmo um gesto claro que transmita sentimentos de amor, cuidado e ternura, o que é especialmente importante neste período em que estamos passando”.

No mundo pós-pandemia

A psicóloga e sexóloga Enylda Mota acredita que a pandemia já promoveu mudanças nos códigos sociais e interferiu na forma como se dão as relações afetivas. Para ela, a principal transformação está relacionada ao toque. Enquanto a crise mais aguda provocada pela doença é atravessada, “estamos tendo que aprender a lidar uns com os outros de outra forma, substituindo o toque por palavras, mensagens, vídeos chamadas”, aponta. 

Em um mundo pós-pandemia, a sexóloga acredita que o toque será mais tímido e cuidadoso. “Dependendo de como cada pessoa lidou com a quarentena, é possível que muitas dessas mudanças colocadas atualmente permaneçam”, acredita.

“Isso tudo vai passar? Sim, vai. Mas, mesmo depois, o abraço ainda será receoso, com desconfiança”, examina.

 

Campanha

“Pela importância do afeto para a saúde emocional das pessoas durante o isolamento social, o Hermes Pardini, referência em Medicina Diagnóstica no Brasil, estimula um movimento positivo de compartilhamento do gesto de autoabraço. O intuito é espalhar pelo país, mensagens de reconhecimento e afeto”, informa o laboratório em comunicado, convidando que as pessoas envolvam-se em um autoabraço e marquem suas fotos ou vídeos com a #EsseAbraçoÉSeu nas redes sociais.

A ação prevê a projeção das mensagens compartilhadas em edifícios das cidades de Belo Horizonte, Goiânia, Rio de Janeiro e São Paulo. Na capital mineira, as imagens devem ser projetadas entre 20h e 22h na região Central, na altura da rua da Bahia com a rua Augusto de Lima.

Pesquisas

  • Um estudo de 2014 da Psychological Science sugere que gestos de apoio, na forma de abraços, levaram a manifestações menos graves de um vírus do resfriado entre aqueles que inicialmente sentiram estresse devido a conflitos interpessoais.
  • Também de 2014, um artigo publicado no Archives of Sexual Behavior indica que abraços mais longos após o sexo estão correlacionados com maior satisfação sexual e de relacionamento.
  • De 2018, uma pesquisa publicada no PLoS One monitorou como discussões afetavam o humor de 400 adultos. Fosse em homens ou mulheres, solteiros ou casados, o abraço parecia reduzir os impactos negativos desses conflitos durante o dia.
  • De acordo com a National Sleep Foundation (NSF), 10 minutos de carinho antes de dormir são suficientes para ter um sono mais profundo. O abraço solitário e outras técnicas que envolvem o toque, até mesmo a yoga, também contribuem para um sono restaurador.

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