‘Pelo menos a gente ainda consegue comer’, diz catador de recicláveis na Grande BH que sofre com pandemia

0
Catador Aguinaldo dos Santos de Jesus viu a renda cair mais da metade durante a pandemia — Foto: Aguinaldo dos Santos de Jesus/Arquivo pessoal

Em Sarzedo, cidade com pouco mais de 30 mil habitantes na Região Metropolitana de Belo Horizonte, uma pequena cooperativa de catadores de materiais recicláveis enfrenta dificuldades para manter as portas abertas. Com a pandemia, a Acamares perdeu 60% da produção.

“A gente tirava por mês uns R$ 600 a R$ 500. Agora o valor caiu pra R$ 400, R$ 350. Não consigo fechar minhas contas. Tenho quase R$ 2 mil de dívida. Pelo menos a gente ainda consegue comer. Na realidade, a gente está é sobrevivendo”, disse Aguinaldo dos Santos de Jesus, de 30 anos, um dos catadores da cooperativa.

Ele é um dos cinco cooperados que estão em grupo de risco para a Covid-19, metade dos trabalhadores da Acamares. O trabalho chegou a ser interrompido no início da pandemia, mas voltou a ser realizado parcialmente na cidade.

Diabético, Aguinaldo vive com um companheiro e dois cachorros. Ele conseguiu o auxílio emergencial de R$ 600, mas não tem sido suficiente.

“É um sufoco. Muito triste, mas a gente está correndo atrás”, disse o catador.
 
Mais de 300 catadores de Belo Horizonte foram impactados com a pandemia, segundo órgão — Foto: Reprodução/TV Globo

Em Belo Horizonte, a produção caiu 100%, de acordo com o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). Cerca de 350 pessoas de seis associações e cooperativas foram impactadas com a paralisação das atividades desde março.

“Estamos vivendo de campanhas, cestas básicas doadas”, disse Neli Souza Medeiros, da coordenação do MNCR.

De acordo com ela, um contrato firmado entre cooperativas e a Prefeitura de Belo Horizonte, em que catadores faziam recolhimento de porta a porta, foi suspenso, o que dificultou a sobrevivência das entidades. O município chegou a incluir os catadores nas doações de cestas básicas, na tentativa de amenizar o problema. A Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) disse que a medida foi determinada para “resguardar a segurança dos catadores das cooperativas e associações” durante a pandemia.

Na última quarta-feira (22), o Ministério Público acordou o encaminhamento de R$ 3 milhões para associações de catadores de materiais recicláveis em todo o estado. Metade será enviada pela Gerdau, após discussão com o órgão sobre outros temas que não foram divulgados. A outra metade fará parte do programa Bolsa Reciclagem, do governo de Minas.

O dinheiro ainda não foi liberado pois será dividido de acordo com a produção de cada cooperativa. Apesar da iniciativa, a medida não resolve o problema, segundo Neli.

“Têm muitas associações que não têm documentação organizada, que não fazem parte da Bolsa Reciclagem. O que está ajudando mesmo são cestas básicas que estão sendo doadas por várias organizações e a campanha nacional de solidariedade que a gente fez”, disse ela.

De acordo com Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), estima-se que os catadores são responsáveis por cerca de 90% de todo o material que chega ser reciclado no Brasil.

“Nós parecemos invisíveis. As pessoas acham que a gente quer ganhar um trocadinho pra beber pinga, né? Mas nós trabalhamos para o meio ambiente. Ter esse reconhecimento seria bom. Mas é triste”, disse o catador Agnaldo.

Deixe um Comentário

Deixe um comentário
Digite seu nome aqui