Com Mateus Simões no governo, Romeu Zema adota tom mais agressivo

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Desde março, antes de estourar a pandemia de coronavírus, o governador Romeu Zema (Novo) passou a adotar um tom mais combativo em suas falas e entrevistas.

Mais reativo, o chefe do Executivo mineiro deixou de lado o papel mais comedido diante de ataques. Pessoas próximas a Zema citam que a chegada do secretário geral Mateus Simões ao governo foi primordial nessa mudança de tom.

Simões, entretanto, disse não ter aconselhado ou sugerido a nova postura ao governador, mas entende que o novo tom pode ser uma consequência da chegada dele ao governo.

“Talvez a minha chegada possa ter feito diferença de ao conseguir organizar um pouco mais as coisas internas, ele (governador) tem mais tempo e disposição para temas que ele precisava delegar antes da minha chegada. O que acho que mudou foi a disponibilidade para que ele desse mais atenção a questões externas. Mas se comparado com outros governadores, presidente, prefeitos, etc, ele é um poço de tranquilidade”, disse o secretário.

Então vereador de Belo Horizonte, pré-candidato ao Executivo da capital e crítico da atual gestão municipal, não foram poucas as vezes em que Simões publicizou críticas com tom elevado ao prefeito Alexandre Kalil (PSD). Em 19 de março, exatamente uma semana depois de Simões chegar à Cidade Administrativa, Romeu Zema, durante entrevista ao quadro Café com Política, no Super N Primeiras Notícias, da rádio Super, rebateu, pela primeira vez, de forma efusiva, uma declaração de Kalil. “Quem está em ano eleitoral e querendo aparecer é ele. Ele está fazendo um alarde enorme, sem necessidade, talvez até porque precise de palanque”, disse.

A declaração foi o estopim para uma série de troca de farpas entre os chefes dos Executivos da capital e do Estado. Dias depois, o governador criticou prefeitos que criaram barreiras sanitárias nas entradas do município e considerou as medidas como “exageradas”.

Já em 20 de abril, governadores do país assinaram uma carta com o intuito de defender a democracia após o presidente Jair Bolsonaro participar de atos no Palácio da Alvorada que pediam a volta do AI-5 e da ditadura militar. O governador mineiro foi um dos poucos que não assinaram o documento e justificou dizendo que tinham “muitas pessoas querendo se aproveitar disso (das polêmicas) para (ganhar) palanque” e que não era o caso dele. Quatro dias depois, outras duas declarações polêmicas. Questionado sobre denúncias de servidores da Saúde relacionadas à falta de equipamentos de proteção, Romeu Zema desmentiu e disse que, “com toda certeza”, tratava-se de alguém “querendo holofote e chamar atenção”. No mesmo dia, o governador deu uma declaração de que “a classe política bate em Bolsonaro porque perdeu privilégios”.

Diante das sucessivas críticas e reações, Alexandre Kalil chegou a falar em 5 de maio que existia um gabinete do ódio no governo mineiro criado após a chegada de Mateus Simões, declaração rechaçada de forma imediata pelo secretário geral. Dois dias depois, Romeu Zema, em entrevista à jornalista Leda Nagle, subiu o tom nas críticas feitas ao ex-governador Fernando Pimentel, elencou supostos crimes cometidos por ele e iniciou os ataques a parte do funcionalismo público quando foi questionado sobre o não pagamento aos professores. “Eu tenho sido muito criticado na Educação porque ali é um antro de sindicalistas, de petistas, que não criticavam quem fazia menos do que eu. Eu só não visto vermelho como eles, talvez o meu pecado seja esse. Se eu vestir um dia, talvez eles vão me aplaudir”, disse.

Duas semanas depois, pressionado pela queda de receitas, Romeu Zema afirmou que não teria recursos para arcar com a folha de pagamento dos servidores e com os duodécimos dos outros Poderes. Ao citar o funcionalismo do Judiciário e do Legislativo, o chefe do Executivo afirmou que o Estado não poderia ter “funcionários de primeira, segunda e terceira categoria”, sem enumerar, entretanto, quais seriam essas categorias.

Foi neste mês de julho, todavia, que as críticas e a perda de paciência do governador se tornaram frequentes. Com segmentos do funcionalismo realizando manifestações contra a reforma da Previdência estadual, o governador deu diversas declarações sobre os protestos. Em 9 de julho, afirmou que “é ofensivo servidores clamarem por direitos com desemprego em alta”. Um dia depois, disse esperar que o Estado não atrase seis meses de salário para que os funcionários públicos entendam a importância da reforma.

No último dia 20, Zema perdeu de vez a paciência e afirmou que os servidores vivem “na ilha da fantasia”, que não devem “reclamar por trabalharem mais três ou cinco anos na vida”. O governador também afirmou que o funcionalismo público se acostumou a ouvir mentiras e a gostar delas nos últimos anos. “Falam que eu não gosto de servidor público. Quem não gosta é o último governador, que saiu sem pagar 13º salário, sem deixar o servidor com acesso à saúde. Ele só mentia e falava que estava tudo bem. Vocês se acostumaram a escutar mentira e gostar. Eu estou aqui para encarar a realidade”, disparou.
Na mesma data, as falas do governador atingiram os sindicalistas, dos quais o chefe do Executivo acusou de estarem acostumados a ter privilégios na gestão do ex-governador Fernando Pimentel e comparou esses supostos benefícios à prática da rachadinha.

Questionado sobre esse tom combativo do governador em relação aos servidores no contexto da reforma da Previdência, Mateus Simões disse que o chefe do Executivo “é prático”. “Um pouco disso é uma insatisfação evidente do governador com a falta de sensibilidade de alguns agentes que gravitam ao redor da administração pública e que parecem divorciados da realidade. Ele é pratico, enquanto as pessoas criticam, ele ouve com tranquilidade, a partir do momento em que as pessoas se colocam no caminho do que precisa ser feito sabendo que isso prejudicaria o Estado, a paciência praticamente evapora”, declarou Simões.

Simões, ao ser Indagado se as críticas mais frequentes por parte do governador ao prefeito Alexandre Kalil partiram dele, rechaçou a hipótese e disse saber que “as pessoas fazem essa associação quando Zema endureceu o comportamento” com a capital. Ao ser perguntado da diferença prática entre o tom ameno e o tom combativo do chefe do Executivo, o secretário geral disse que isso tem pouco efeito prático no dia a dia do governador e lembrou que anteriormente, o tom ameno ” foi colocado como algo que poderia prejudicar o governo ou a ele porque de alguma forma o apagaria do ambiente político”.

O secretário de Romeu Zema, entretanto, ressaltou que o chefe “só reage à falta de lógica” e que “as reações do governador são sempre à posições que colocam em risco os efeitos práticos buscados por ele”.

Procurada, a assessoria de imprensa do governador disse que ele não iria falar sobre o assunto.

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