Mariana: reconstrução de distritos destruídos se arrasta por quase cinco anos

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Moradores reclamam de demora em obras de reassentamento em Mariana — Foto: Mauro Marcos da Silva/Arquivo Pessoal

Agosto de 2020. Para moradores do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), essa data já representou a esperança de voltar a morar na casa própria. Mas uma decisão judicial já havia adiado a expectativa para fevereiro do ano que vem. E, agora, com o impacto da pandemia nas obras de reconstrução da comunidade devastada pelo rompimento da barragem de Fundão em 2015, moradores acreditam que o reassentamento definitivo pode demorar ainda mais.

A estrutura da Samarco, cujas donas são a Vale e a BHP Billiton, rompeu-se no dia 5 de novembro de 2015, matando 19 pessoas. Além de destruir casas, o mar de lama despejado pela barragem atravessou Minas Gerais, chegou ao Espírito Santo e, neste caminho, devastou o Rio Doce.

Prestes a completar 5 anos da tragédia, o comerciante Mauro Marcos da Silva, de 51 anos, diz que a sensação da comunidade é de “frustração e impotência”. “Mesmo sem a pandemia, não acreditaria que essa data [de 27 de fevereiro de 2021] seria cumprida”, diz. Junto a outros 8 moradores, ele integra a comissão de atingidos de Bento Rodrigues.

Frequentemente, ele visita as obras, que tiveram o ritmo alterado por causa da pandemia. Em 23 março, a Fundação Renova, entidade criada para a gerir as ações de reparação de danos provocados pela tragédia, suspendeu voluntariamente as atividades, que chegaram a ser retomadas no dia 5 de maio.

Obras do novo Bento Rodrigues tiveram que ser paralisadas por causa da pandemia — Foto: Mauro Marcos da Silva/Arquivo Pessoal

Entretanto, as obras foram mais uma vez suspensas em 21 de maio após uma determinação da prefeitura de Mariana. Os trabalhos só começaram a ser retomados no dia 15 de junho.

De acordo com a Renova, as obras estão sendo reprogramadas de acordo com impacto específico em cada uma delas. Segundo a fundação, a Justiça foi informada sobre o tempo que as obras precisaram ser suspensas.

“Importante também destacar que o retorno é gradual, demanda novos procedimentos de controle, e, portanto, as obras não acontecem com o mesmo ritmo estabelecido antes da pandemia. Para tanto, deve-se aguardar a manifestação do juízo da comarca de Mariana no âmbito da Ação Civil Pública”, disse a Renova.

Em Bento Rodrigues, 210 famílias devem ser reassentadas. Questionada sobre o andamento das obras, a Renova informou que mais de 170 projetos conceituais de casas e lotes foram concluídos ou estão em andamento e que estão sendo realizadas as intervenções de infraestrutura, como esgoto, rede elétrica, abastecimento de água e pavimentação.

Obras de reassentamento foram iniciadas há dois anos — Foto: Mauro Marcos da Silva/arquivo Pessoal

Mas Mauro diz que, por enquanto, pouco se concretizou em relação aos novos lares. Segundo ele, duas casas estão em fase de acabamento e outras cerca de 15 foram iniciadas e estão entre a fundação e a alvenaria.

“A gente está lidando com as duas das maiores mineradoras do mundo, mas parece que não usam seus recursos a favor dos atingidos da barragem”, afirma.

Desde a década de 1980, quando foi para a sede de Mariana estudar, Mauro não passava a maior parte da semana em Bento Rodrigues. Mas era lá que sentia – e ainda se sente – em casa.

Ele afirma que o projeto da casa dele está pronto desde outubro de 2018, mas, como ainda há discordâncias entre o comerciante e a fundação, as obras não foram iniciadas.

Já o pai de Mauro, hoje com 87 anos, ainda não chegou a um acordo com a Renova em relação ao terreno. Os escombros da casa do idoso são umas das cenas que mais impactam a quem vista o distrito destruído. Mesmo com dois andares, o imóvel não resistiu ao mar de lama.

Mesmo com dois andares, casa do pai de Mauro Marcos da Silva não resistiu ao ‘mar de lama’ — Foto: Raquel Freitas/G1

O comerciante conta que, após o desastre, o pai caiu em depressão, teve três infartos e um AVC isquêmico.

“Hoje ele toma uma mão cheia de comprimidos. (…) Infelizmente, nesse período de 5 anos, além das 19 vítimas e de 1 aborto, que eles não consideram como vítima, várias pessoas foram perdendo a vida neste tempo”, diz.

Enquanto acompanha os andamentos das obras do novo Bento, Mauro também aguarda a decisão da Justiça Britânica sobre a jurisdição de um processo contra a BHP Billiton. A ação no valor de de £ 5 bilhões (US$ 6,5 bilhões ou mais de R$ 25 bilhões), inclui cerca de 200 mil indivíduos, além de prefeituras, empresas e a comunidade indígena Krenak.

“A gente busca que as coisas sejam reparadas na sua integralidade. Afinal perdemos tudo que tínhamos, histórias, memórias. Já vamos para 5 anos e as coisas não caminham com a devida urgência. A gente espera que a ação siga tramitando lá na Inglaterra”, afirma.

Paracatu de Baixo

Em Paracatu de Baixo, comunidade que também foi atingida pelos rejeitos de Fundão, serão reassentadas cerca de 100 famílias. Segundo a Fundação Renova, atualmente estão sendo feitas intervenções no aterro e na área da contenção em terra armada, terraplenagem das vias de acesso e das áreas dos lotes, além de obras de bueiros de drenagem pluvial, redes de água e esgoto. Mais de 70 projetos conceituais de casas foram concluídos ou estão em andamento, conforme a Renova.

Mas o sentimento dos moradores é de desamparo. “Até hoje não tem nenhum tijolo levantado”, diz Romeu Geraldo Oliveira, que integra a comissão de atingidos do distrito.

O distrito de Paracatu de Baixo ficou sob a lama após o rompimento da barragem — Foto: Raquel Freitas / G1

Antes do rompimento, Romeu vivia do comércio. Em Paracatu de Baixo, tinha uma sorveteria, mas, com a tragédia, perdeu a fonte de renda. Por cerca de oito meses, trabalhou nas obras de reconstrução de Bento Rodrigues, mas hoje está desempregado e vive em uma casa alugada pela Renova. Para ele, o cenário no terreno onde vai ser reerguida a comunidade de Paracatu de Baixo é desanimador.

“A situação está bem atrasada, bem lenta. Até hoje a gente não tem nenhuma edificação feita. Isso deixa a comunidade muito apreensiva”, diz.

Segundo ele, as obras seguem a passos lentos e, por causa da pandemia, o número de trabalhadores foi bastante reduzido.

“Do jeito que está lá, no mínimo uns 4 anos para gente voltar para casa”, lamenta.

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