Cine Belas Artes BH lança campanha nesta segunda (28) e pede socorro

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Um dos últimos cinemas de rua da capital mineira, o Cine Belas Artes grita por socorro. Na última sexta-feira, o emblemático espaço cultural de Belo Horizonte disparou um comunicado anunciando para esta segunda-feira (28) o início de uma campanha de crowdfunding visando arrecadar dinheiro para que o local, fundado há 28 anos, consiga sobreviver incólume à quarentena.

Emblematicamente intitulada SOS Belas Artes (para doar entre R$ 30 e R$ 10.000, acesse aqui: benfeitoria.com/soscinebelasbh) , a vaquinha coletiva pretende arrecadar, em três etapas, o montante de R$ 500 mil,  a maior parte para saldar dívidas que foram se acumulando no curso da pandemia do novo coronavírus, quando, como todas as salas de exibição do país, o espaço situado na rua Gonçalves Dias, 1.581, no entorno da praça da Liberdade, teve que fechar suas portas.

A ameaça da Covid-19 pegou todo o mundo de imprevisto, mas, claro, alguns setores foram mais duramente atingidos. “Porque cinema não tem delivery.  Que delivery nós teríamos?”, indaga Adhemar Oliveira, administrador da sala que se insere em uma atividade que ainda não foi beneficiada pelas regras de flexibilização, ao menos na capital mineira.  Diante de um cenário desolador, veio a ideia da vaquinha coletiva, que, vale dizer, prevê várias contrapartidas e ações que ensejam atrair de estudantes a empresários. 

Segundo Adhemar, os valores doados estão conjugados a recompensas como passaportes, que vão permitir ao cinéfilo que ajudar frequentar o espaço sem pagar durante seis meses ou um ano. No caso de empresários, que podem contribuir com um valor maior, a contrapartida pode ser um comercial veiculado na tela, antes de o filme começar.

Além do pagamento das dívidas (impostos, aluguel e benefícios aos funcionários), a ideia é usar o dinheiro para itens como cobertura de manutenção, reparos, troca de poltronas, revestimento acústico e telas das três salas. A campanha prevê também nova decoração e atualização de equipamentos sonoros e de projeção do espaço. O prédio, que pertence ao Diretório Central de Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), assinado por um dos principais nomes da arquitetura mineira do século XX: Sylvio de Vasconcellos. 

Veja abaixo, trechos da entrevista concedida por Adhemar Oliveira ao Magazine

Passados quase sete meses do início da quarentena, como está a situação do Belas Artes? A gente tem uma série de compromissos que está em atraso, estamos tentando negociar (as dívidas). No primeiro mês, demos férias a todos os funcionários, no segundo, optamos pela suspensão de contratos, dentro do programa implantado pelo governo, mas mantivemos todos (os que ali trabalham). Esse programa vai até outubro. E agora estamos negociando para tentar dar um encaminhamento, seja  com os fornecedores, com o próprio DCE, no que se refere a impostos… Estamos falando de um período de renda zero. Na verdade, todos os cinemas do Brasil meio que estão negociando, IPTU, aluguel, pagamento de taxas…

O grito foi dado. Quais as demandas mais urgentes, neste momento? Superar as dívidas é o primeiro passo, a remodelação da estrutura para tornar ainda melhor o espaço é o segundo. Porque mesmo quando abrir, com os protocolos que vão ser necessários, queremos que a pessoa sinta uma diferença. Então, nossa preocupação é também o pós-pandemia. Porque vai ter uma transição, que vemos como um período de muito trabalho, mas com uma renda ainda diminuída. Digamos que a gente possa ter só 50% da ocupação da sala (na retomada). Então vamos ter ainda um bom período para sambar ainda. E inventar programações. Assim, veio a ideia de colocar essas questões para a sociedade, já que o Belas Artes, existe há 28 anos, ele é um dos últimos cinemas de rua de Belo Horizonte, exercendo um papel, além de cinema, no próprio conjunto arquitetônico e no incentivo à ocupação das ruas da cidade. E sem contar que é um espaço de filmes independentes que faz a diferença na programação, e essa independência, de uma certa forma a gente linka para a sociedade também que é um suporte da liberdade. Assim como a liberdade é necessária para ter a diferença, a diferença vira um suporte da liberdade. E você saber que existem outros programas, outros filmes, e o Belas Artes está sempre aberto a isso. Todo o novo cinema brasileiro está passando lá. Todo o novo cinema feito em Minas, idem. Independentemente até de resultado (de bilheteria). Mesmo não dando resultado, é um espaço aberto para a arte, a todo tipo de experimentação, as pessoas sabem disso.

E palco de muitos momentos importantes, não é? Ali é realmente algo único. Claro, sofria as intempéries da economia. E mais uma vez, o momento econômico e político estava jogando contra.  Mas com toda a dificuldade que o mundo passava, tivemos bons momentos, como quando o (diretor) Kleber Mendonça lançou “Bacurau” lá. Depois, ele me mandou umas fotos lindíssimas do saguão entupido de gente, dizendo que foi um dos melhores debates (que aconteceram no bojo da estreia do filme). Mas é isso, fomos brigando (tentando sobreviver). Batemos na trave de fechar um patrocínio. Estávamos com a minuta do contrato, mas não deu certo. E aí, não bastasse, veio a pandemia.

Como o valor estipulado como meta da campanha foi calculado? Para superar a pandemia, não é só pagar as dívidas, você tem que melhorar o espaço e fazer uma previsão de travessa. A campanha visa arrecadar, ao fim, R$ 500 mil,  em três etapas, sendo a primeira e a segunda de R$ 200 mil (cada), e a terceira, R$ 100 mil. A primeira é para colocarmos as contas em dia, a segunda, a troca de revestimentos e poltronas das salas, e a última, ajustes que a gente tem que fazer, e que a gente deixou por último, porque a primeira e a segunda são fundamentais. Fizemos o valor de necessidade, para superar esse ano de pandemia, mas é preciso dizer que, na campanha, os valores estão conjugados a recompensas, como passaportes, que vão permitir ao cinéfilo que ajudar frequentar o espaço sem pagar mais nada durante seis meses ou um ano, por exemplo. E esta é uma forma também de termos uma antecipação de receitas. Ou ele pode contribuir e ganhar uma camiseta do tipo ‘Eu ajudei’. No caso de empresários, que podem contribuir com um valor maior, podem ter, como contrapartida, um tempo de mídia (com comercial veiculado na tela, antes de o filme começar, por exemplo). Ou ter o nome na cadeira (por meio de placas). A gente estruturou a campanha de uma forma que dê sentido (a quem quiser ajudar), que possa abrir o leque, convidando desde o estudante, que só pode ajudar, por exemplo, com R$ 30, ao empresário, que pode pegar uma cota mais cara. Pensamos essa ação quase como  um espírito coletivo de manter o local. Tanto que no nosso release não fala que é a administração, eu, o beltrano ou o sicrano. É o Belas Artes que está falando, e quando ele fala, e todas as pessoas que trabalham ou trabalharam ali. O fato de o local estar vivo  se deve ao trabalho dessas pessoas que passaram, então, estamos chamando para um ‘vamos manter’. E com qual objetivo? Para manter a diferença, o cinema independente, o cinema de arte, uma programação que não tenha vez em outro lugar.

Em termos de programação para a esperada reabertura, já têm algo pensado? Estamos pensando em fazer uma ‘Segunda Cinéfila’, por exemplo, só de reposição (no caso, para pessoas que ajudaram na campanha). Vamos continuar com os programas que já estavam em curso, como o Escola no Cinema, Clube do Professor… E a gente participa e abre (espaço) para os festivais (que acontecem na cidade), como o Varilux, de cinema francês, o 8 1/2 Festa do Cinema Italiano – que este ano aconteceu online -, o Festival de Cinema Português… Tem uma série de compromissos que a gente já faz há tempo e estavam parados. O Varilux teve uma edição virtual, mas já anunciou a presencial para 19 de novembro, mas não sabemos se aqui, em Belo Horizonte, já vai estar aberto (referindo-se às diretrizes de cada esfera governamental, que precisam estar em consonância com as autoridades sanitárias).  Não só organizados pela gente, somos parceiros.

Gostaria de deixar algum apelo para o público? Eu não sou arquiteto, urbanista, mas como já tenho uma longa história com cinemas de rua, sei como esses espaços são (nos dias atuais) um diferencial para a cidade, e o Belas Artes BH ficou ainda mais mais diferenciado na medida em que praticamente todos os espaços iguais (dedicados ao dito cinema de arte) desapareceram (referindo-se ao fechamento, nas últimas décadas, de espaços como o Cine Pathé, Savassi Cineclube, Usina, Cine Imaginário, Cine Nazaré, La Bocca e outros). Os cinemas de arte envolvem gerações, porque se você olhar, você tem ali do estudante aos mais velhos, são extremos que gostam deste perfil de filme. E a arte jovem também está ali. Essa somatória de fatores faz deste tipo cinema – e aí não importa na mão de quem esteja, e sim do formato – uma experiência única, que merece receber apoio, e independentemente da pandemia, para continuar. Hoje é uma geração, amanhã entra outra. Por isso estamos frisando que é o Belas Artes que está pedindo ajuda, quase como ele falando. É um cinema que precisa desse apoio para que suas atividades tenham continuidade. Entendo o Belas Artes BH como um bem público. Funcionando como uma empresa privada, mas é um bem público. E quando a gente dá valor a isso, acho que a cidade ganha valor. E esse berro, esse grito, não é apenas um cinema, é algo além, uma luta de coração que a gente trava. É muito menos cabeça e mais emoção.

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