Incêndios em MG: mortandade de animais chega até 80%; prejuízos são irreparáveis

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Agosto, setembro e outubro são meses críticos em meio à estiagem e à estação seca para o meio ambiente em Minas Gerais. Fagulhas rapidamente transformam-se em incêndios de grandes proporções como os que recentemente ocorreram no Parque Municipal Ursulina de Andrade Mello no bairro Castelo em Belo Horizonte, no Parque Estadual Serra do Cipó em Santana do Riacho e no Parque Estadual do Itacolomi em Ouro Preto. Fora o drástico prejuízo às espécies arbóreas, queimadas em unidades conservação impactam também na sobrevivência da fauna. Acredita-se que a mortandade entre animais pode alcançar até 80% do todo existente de espécies em uma área de preservação a depender das proporções do incêndio e, algumas vezes, o prejuízo é irreparável mesmo à recuperação da própria mata.

Além daqueles que morrem carbonizados e intoxicados, há uma parcela entre os animais que consegue refugiar-se em perímetro urbano, são estes os capturados pelo Corpo de Bombeiros, sendo que alguns sofrem queimaduras tão sérias que jamais serão capazes de retornar à natureza. O impacto das queimadas em Minas Gerais, aliás, têm provocado um dano maior que em anos anteriores não apenas em termos de hectares destruídos pelas chamas, como também em relação à fauna: balanço da corporação de sexta-feira (9) indica aumento na quantidade de ocorrências relacionadas à captura de animais se comparados os meses de janeiro a setembro de 2019 e este ano. Constatou-se aumento em todos os meses, sendo especialmente maior o crescimento em setembro agora. Quanto o número total, nos nove primeiros meses de 2019, os militares atenderam a cerca de 4.200 ocorrências de captura de animais silvestres em áreas urbanas, indicador que subiu para 5.390 no mesmo período, porém neste ano.

À médica-veterinária Luana Maressa Freitas, também soldado do Corpo de Bombeiros, a elevação na quantidade de queimadas ocorridas no estado de Minas Gerais repercute diretamente no número de ocorrências de captura atendidas pela corporação. “Parques mineiros têm, muitas vezes, uma característica urbana, são margeados por rodovias e bairros. Observa-se que quando um incêndio começa nas áreas de preservação, os animais que conseguem sobreviver tendem a se refugiar em áreas urbanas, são animais com lesões sérias provocadas pelo fogo que às vezes escondem-se em casas e garagens”, detalha.

Ela destaca que há ainda os animais que por características da espécie ou mesmo por serem filhotes não são capazes de fugir. “A maior parte dos animais são encontrados mortos nessas regiões de queimada, carbonizados. Vemos muitos répteis, filhotes de aves e outros animais que têm deslocamento mais lento ou que estão feridos que não conseguem fugir. Em alguns dos casos, o animal até tem condições de escapar, mas a direção do vento muda com frequência durante um incêndio e às vezes ele é cercado e, acuado, não consegue fugir”. Esta última hipótese por ela citada retrata a história de um coelho retirado às pressas de um foco de queimada no Parque Estadual do Itacolomi em Ouro Preto. Enquanto fugia, o mamífero acabou encarcerado em um círculo de fogo. Entretanto, um militar conseguiu retirá-lo de lá e, apesar do animal estar muito queimado e assustado, pôde levá-lo com vida a uma clínica veterinária.

Aliás, é este o destino de muitas das espécies resgatadas pelo Corpo de Bombeiros. A depender do histórico, o bicho é levado até o Centro de Triagem de Animais Silvestres do IBAMA em Belo Horizonte. Em outros casos, quando não há possibilidade dele ali ser recebido, destina-se o animal a clínicas veterinárias que têm convênio com o Corpo de Bombeiros e o Estado de Minas Gerais. Alguns conseguem recuperar-se e são encaminhados após tratamento à natureza, outros, entretanto, jamais retornam a seu habitat natural. “Dependendo do grau de acometimento das lesões, das queimaduras, do grau das lesões nos nervos e do tempo que este animal permanece confinado em tratamento, ele pode acabar fadado a viver o resto da vida em cativeiro. Nós precisamos verificar sempre se ele tem condições de retornar à natureza, se poderá caçar, se alimentar por conta própria e tornar a apresentar os comportamentos que tinha antes do incêndio”, esclarece a veterinária.

Prejuízo irreparável

Elevada taxa de mortandade entre animais e interrupção de etapas do processo ecológico em áreas de preservação estão entre os prejuízos mais sérios referentes às queimadas para a fauna e os próprios ecossistemas atingidos. “Unidas de preservação muitas vezes estão em ambientes urbanos, cercadas por prédios e outras estruturas. Algumas das próprias áreas, como o que aconteceu no Parque Ursulina de Andrade Mello, são cercadas, o que complica o escape e a fuga. A mortandade é acentuada e, em alguns incêndios, a taxa pode atingir 80%. Grande porção vai desaparecer. Além da mortandade, qual outra consequência temos? Estes animais mortos exerciam uma série de processos ecológicos importantes para as florestas, como os insetos e as aves que são dispersores de sementes e iriam atuar no processo de recuperação do ambiente”. Quem explica é biólogo Adriano Paglia, docente no Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Ele esclarece que há em muitas oportunidades a fuga de animais para as cidades em busca de abrigos. “Quando a unidade não é cercada, acontece o extravasamento da fauna atingida. Os animais fogem dos incêndios, mas acabam sofrendo outras ameaças no ambiente urbano como atropelamentos e até a possibilidade de que alguns indivíduos possam prejudicar estes animais. É uma situação bastante complexa”.

O que fazer quando encontrar um animal silvestre?

A orientação é que a população sempre ligue para o Corpo de Bombeiros – 193 – se encontrar algum animal da fauna silvestre, esteja ele ferido ou não. “Algumas pessoas têm boa intenção e às vezes querem tratar as queimaduras dos animais com receitas caseiras, como pasta de dente ou borra de café. Na maior parte das vezes o animal está assustado e pode tornar-se agressivo pelo medo e pela dor que está sentindo, então é sempre melhor acionar o Corpo de Bombeiros”, detalha a soldado Luana Maressa Freitas. Uma outra dica é, caso seja possível, confinar o animal em um cômodo separado ate’a chegada dos militares que prestaram os primeiros cuidados às queimaduras – que consistem em colocar um pano limpo e úmido sobre a área queimada ou deixá-la em água corrente.

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