‘Quando sair do hospital, eu vou’: filha que encontrou lista no celular do pai após morte por câncer diz que já realizou alguns sonhos

0
Meses depois da morte do pai, Júlia encontrou em seu celular uma lista de coisas que ele queria fazer — Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução

“Quando sair do hospital, eu vou…” Esta semana, a história de Júlia do Vale e da luta do pai contra o câncer viralizou. Ela descobriu uma lista com 26 planos que Ramon do Vale Vicente realizaria, se tivesse vencido a doença, e publicou em uma rede social. Algum tempo depois não só pensou, mas começou a concretizar parte das metas. O G1 conversou com a garota e a mãe, Fernanda de Souza Filho, para saber como foi a preparação e a vivência dos sonhos que estavam guardados em um celular.

O mineiro de Cataguases morreu no dia 21 de dezembro de 2019, aos 53 anos, depois de lutar dois anos contra a leucemia. Oito meses após a morte, Júlia encontrou no bloco de notas do celular dele os itens que gostaria de fazer quando saísse do hospital. A maioria envolvia a filha única.

Em seguida, Júlia mostrou para mãe e decidiu postar no Twitter como forma de desabafo e para contar aos amigos sobre o momento difícil que passava. “Não imaginava a repercussão que teria, em nenhum momento”, comentou. Até a manhã desta quinta-feira (8), a publicação tinha mais de 20.500 compartilhamentos e quase 145 mil curtidas.

Os sonhos

Quase todos os planos de lista escrita pelo pai envolve a filha, “Ju” — Foto: Redes sociais/Reprodução

“Ele sempre falou comigo que tinha um aplicativo de notas no telefone, que escrevia muitas coisas pessoais e que era pra eu não mexer. Foi então que um dia antes do aniversário dele [25 de setembro] fiquei na dúvida. Mas resolvi abrir e vi várias coisas. O que chamou atenção foi o título do bloco de notas: ‘Quando eu sair do hospital eu vou…’. Desabei e chorei muito”, contou ao G1.

E depois veio a vontade de realizar os sonhos do pai. Alguns dos itens listados por Ramon já foram cumpridos pela adolescente. Eram coisas que ele sempre falava para a filha e para a ex-mulher no hospital, como viagem para praia, tatuagem com os batimentos cardíacos dele e reformar a casa da mãe, que mora em Fortuna de Minas.

Júlia do Vale em Cabo Frio (RJ), um dos itens da lista do pai — Foto: Arquivo Pessoal

“A Júlia tem uma suspeita que, por causa do processo quimioterápico ser muito pesado, ele tenha feito essa lista para não esquecer das coisas e reforçar a conversa com ela. Ninguém acreditava que ele não ia conseguir vencer o câncer, ele não desistiu em nenhum momento”, relatou a ex-mulher Fernanda, de 47 anos, que é psicóloga e trabalha com recursos humanos.

1º item da lista

O primeiro item dos 26 era uma viagem na praia com a Ju. O interessante é que meses antes de ter acesso à lista, em janeiro de 2020, Júlia, a mãe e parentes viajaram para Cabo Frio (RJ), a praia preferida do pai.

“Ele sempre falava do sol no hospital, que os dias estavam bonitos e que quando ele saísse, ele ia direto pra praia”, lembrou.

Cabo Frio também tem uma ligação especial porque foi a primeira praia que Fernanda e Ramon levaram a filha, quando ela era criança. Na viagem, elas visitaram a Praia do Forte, Arraial do Cabo e outras atrações da Região dos Lagos.

Tatuagem e a reforma da casa

Outro item que Júlia já tinha cumprido era a tatuagem. Em maio, ela marcou na pele os batimentos cardíacos do pai, que os dois tinham combinado durante tratamento no hospital.

Fernanda e a filha já estavam ajudando na reforma da casa da mãe de Ramon, em Fortuna de Minas. As obras estão em andamento, já que a família não tinha um dinheiro reservado para isso, mas vão continuar com a missão de arrumar a casa da avó paterna.

Ramon era técnico em eletrônica e apaixonado por carros — Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução

Próximos itens

Júlia disse ao G1 que outros planos estão à caminho. No próximo ano quer tirar carteira de motorista para poder dirigir o jipe deixado pelo pai. O carro também será reformado da forma que Ramon queria: pintar o veículo de vermelho e trocar os bancos para a mesma cor.

“Não vamos vender o carro. Eu quero começar a trabalhar para poder mexer no carro, quero realizar todos os sonhos dele”, ressaltou a adolescente.

Ela e a mãe também querem cumprir um desejo de Ramon, que era visitar o santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Portugal. Segundo Fernanda, ele era muito devoto da santa e levou uma imagem dela até o último momento no Centro de Terapia Intensiva (CTI). Atualmente, elas estão juntando dinheiro para começar a planejar a viagem.

Plano que não será cumprido

Para a reportagem, a adolescente contou que tem um plano que não vai cumprir, que é a troca do sobrenome dela de “Vale” para “Valle”.

“Meu pai tinha o desejo de mudar o nome para Vale com dois L, como da nossa família. Meu avô que colocou com um L só, para ficar mais fácil de escrever na época. Eu decidi que não vou mudar, já que só nós dois temos o sobrenome, assim ficamos exclusivos, é uma coisa nossa”, contou.

Na lista: ajuda e combate ao câncer

Um dos tópicos da lista de Ramon e que era sempre falado com Fernanda e Júlia era a ajuda às crianças com câncer no hospital em que estava internado, em Belo Horizonte.

“Em um período do tratamento, ele foi transferido para a ala infantil do hospital. As crianças faziam o mesmo tratamento de quimioterapia que ele, e o Ramon ficava ouvindo as crianças chorarem o tempo todo, e ficava muito triste, mexia muito com ele isso. Ele me pediu para ajudarmos as crianças do hospital e falei que estava junto com ele nessa”, explicou Fernanda.

No período em que Ramon aguardava o transplante de medula, que seria doado pela filha, a família juntou R$ 8 mil com doações de amigos e parentes para ajudar no momento em que ele saísse do hospital, já que precisaria de cuidados especializados para pessoas transplantadas.

 

Entretanto, Ramon não chegou a fazer o transplante, e os familiares e amigos falaram para Fernanda e Júlia ficarem com o dinheiro.

O valor arrecadado foi utilizado em uma ação de apoio às crianças com câncer, auxiliar um amigo que fazia o tratamento da doença. Além disso, também foi utilizado para pagar o sepultamento de Ramon e ajudar nas reformas da casa da mãe dele.

As duas procuraram, então, a Missão Sofia – um projeto feito por Mariana Alves e pela filha Sofia, de oito anos, que criam perucas com temáticas de princesas e super-heróis, que são feitas de crochê, para crianças que fazem tratamento de câncer no Hospital da Baleia.

Parte do dinheiro arrecadado foi entregue para a Missão Sofia, e Júlia e Fernanda participaram da entrega de 75 perucas. A intenção da mãe e da filha é continuar apoiando o projeto e outras iniciativas que auxiliam crianças e familiares que sofrem da doença.

Perucas da Missão Sofia em Belo Horizonte — Foto: Rede social/Divulgação

Outra parte foi destinada a um amigo da família, o Helton, que mora próximo à mãe de Ramon, em Fortuna de Minas e também estava com um linfoma. Fernanda contou que o ex-marido se preocupava muito com o amigo, que não tinha condições financeiras, plano de saúde e fazia todo o tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O dinheiro ajudou Helton a custear medicamentos e realizar parte do tratamento. Ele conseguiu fazer o transplante de medula e encontra-se recuperado do câncer.

Além dessas iniciativas, Júlia e a mãe querem chamar a atenção para outra causa muito especial: a doação de sangue e medula.

“Gostaríamos de fazer um apelo, potencializar e pedir para que as pessoas doem sangue e medula óssea. Foi muito difícil para o Ramon, ele precisou de muito sangue e na época conseguimos mobilizar 100 doadores”, reforçou Fernanda.

Em todo o estado, a doação de sangue pode ser agendada pelo site do Hemominas, que não parou de receber doações durante a pandemia de coronavírus. É preciso ter entre entre 16 e 69 anos de idade. Adolescentes de 16 e 17 anos podem doar acompanhados pelo responsável legal, que deverá apresentar um documento de identidade e assinar a autorização no local de doação.

Ramon

Ramon do Vale Vicente nasceu em Cataguases, passou a infância em Recreio. Se formou em técnico em eletrônica em Juiz de Fora, trabalhou em Belo Horizonte com manutenção em torres de rádio para a Telefonia.

Casou em 1999 com Fernanda e, quatro anos depois, nasceu Júlia. E foi em 2018 que algo começou a não ficar bem na vida de Ramom. Quinze dias depois veio o diagnóstico de leucemia.

Após um ano e oito sessões de quimioterapia, ele foi para a casa. Contudo, quatro meses depois, começou a passar e ficou mais quatro meses no hospital. Foi então que no dia 21 de dezembro de 2019, Ramom perdeu a batalha e faleceu. Agora ele vive nos sonhos da lista que segue sendo planejada pela filha.

Deixe um Comentário

Deixe um comentário
Digite seu nome aqui