Em Divinópolis, historiadores dizem que novo projeto de acesso ao Complexo de Saúde São João de Deus desfaz identificação afetiva

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Fachada do Complexo de Saúde São João de Deus está sendo demolida — Foto: Herivelta Diniz/Divulgação

A fachada do Complexo de Saúde São João de Deus (CSSJD), em Divinópolis, passa atualmente por uma reforma. A atual estrutura está sendo demolida para que seja construída uma nova portaria de acesso. A unidade é a única de alta complexidade que atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade.

A estrutura já foi reformada pelo menos duas vezes nos últimos 10 anos, mas a originalizada da arquitetura foi preservada. Dessa vez, segundo historiadores, o projeto de modernização irá descaracterizar a identificação afetiva com o local.

Projeto da nova fachada foi publicado nas redes sociais do Complexo de Saúde São João de Deus — Foto: CSSJD/Divulgação

O hospital defende que a reforma visa criar um ambiente aconchegante e confortável para o público. Nas redes sociais, uma publicação divulgou o andamento das obras. “Guarde bem os detalhes desta fachada em sua memória, pois em muito breve o Complexo de Saúde terá a mais moderna fachada da região”, informou a assessoria na postagem.

Historiadores

Para a historiadora Patrícia Cunha, a nova obra vai deixar uma lacuna na memória, e consequentemente, na história de pessoas que tinham aquele símbolo como parte da vida e do cotidiano.

“A partir do momento que a administração do Hospital deseja realizar essa obra, ela está querendo deixar o seu passado e mostrar que algo novo e ‘melhor’ está por vir. Mas na minha humilde opinião, toda modernização arquitetônica de um edifício, fachada e tal, vai deixar para trás a sua antiga representação. Vai deixar uma lacuna na memória e, consequentemente, na história de pessoas que passaram pela fachada”, pontuou.

Fachada já foi pintada de bege em tom claro — Foto: Reprodução/TV Integração

G1 também conversou com a Secretaria de Cultura do município. Segundo a pasta, a reforma não vai descaracterizar a unidade, já que outras reformas ocorreram antes.

O historiador José Heleno fez uma série de ponderações sobre a iniciativa da unidade. Ele defende o laço afetivo da população com a fachada antiga.

“Qual será a justificativa, além da questão estética? Será essa a única justificativa? Será que é para garantir o bem-estar das pessoas que utilizam aquele espaço, é necessária essa modificação? Não seriam possíveis outras modificações que garantissem maior mobilidade, se é que a atual estrutura dificulta em algum momento? Eu diria que não há uma resposta exata, mas eu particularmente penso que seria muito interessante que as instituições tivessem o hábito, por exemplo, de ouvir os usuários, as pessoas que utilizam aquele espaço, que moram e que frequentam aquela região, sobre essas modificações”, ponderou.

“Não se trata de um bem tombado, nesse sentido, não há nenhuma ilegalidade na destruição da atual fachada, mas é sintomático que essas destruições aconteçam sem as pessoas que usam o espaço sejam ouvidas. Seria interessante as instituições adotarem essa prática de ouvir as pessoas que usam o espaço, que é público e que de alguma forma estabelece laços afetivos com muitas pessoas. Eu mesmo morei ali próximo e percebo que a fachada tem um significado afetivo sim”
— José Heleno, historiador

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