Após ser barrado no metrô, autista quer popularizar cães de serviço

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Após ter o embarque barrado no metrô do DF, o jovem autista que convive com um cão de serviço decidiu batalhar pela popularização do acompanhamento canino especializado na capital federal. O caso aconteceu no sábado (21/11), no Estação Central, da Rodoviária do Plano Piloto. A repercussão deu forças para o jovem Arthur Skyler Santana de França (foto em destaque), de 22 anos,  iniciar um projeto, na intenção de garantir que ninguém mais passe pelo que o rapaz definiu como “humilhação”.

Arthur estava acompanhado pelo cão de serviço Atlas, da raça pastor belga malinois, quando foi abordado por seguranças do Metrô-DF. “O Atlas é literalmente a minha independência. Eu consigo ir ao mercado, trabalhar tranquilo, fazer atividades de lazer, que eu normalmente não faria com medo de passar mal”, afirmou o jovem.

Confira fotos de Arthur e Atlas:


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Skyler é treinador de cães de serviço. Para ele, com o devido cuidado, os cachorros podem mudar a vida de pessoas com autismo, ansiedade, depressão, bipolaridade, epilepsia, diabetes, estresse pós-traumático ou comorbidades. Mas no último sábado, ele enfrentou momentos de desespero e o episódio, que despertou indignação de moradores do DF, levou o jovem a batalhar pelo lançamento de um projeto social que visa popularizar o cão de serviço.

Segundo Skyler, o objetivo é proporcionar o acesso de quem não tem condições financeiras a cães de serviço. Pessoas com deficiências ou comorbidades enfrentam dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, por exemplo, e ter um cão treinado pode ajudar esses pacientes a se desenvolverem melhor na sociedade.

Ajuda múltipla

O cão de serviço é treinado para ajudar a pessoa a superar uma crise, pedir socorro a alguém em caso de necessidade e buscar remédios. Pode auxiliar em tarefas do cotidiano, como apagar ou acender a luz de um recinto, por exemplo.

Devido a falta de conhecimento, e aos preços elevados, o serviço ainda não é muito conhecido no DF. Skyler está com o projeto pronto e agora, para tirar a iniciativa do papel, busca parcerias, a exemplo de universidades.

Para o jovem autista, a partir do trabalho em conjunto com instituições acadêmicas, ele conseguiria dar condições para a formação de uma equipe multidisciplinar, treinada para atender essas pessoas.

Inicialmente, o treinador avalia dois modelos. No primeiro, o cão de serviço ficaria com a família do paciente, monitorado por duplas ou trios de adestradores. No segundo, com parcerias, seria criado um núcleo para os cães. “Teria, ali, o local para treinos. Poderíamos oferecer também veterinários para cuidar da saúde dos cães. Isso seria o ideal”, explicou.

Escolha personalizada

O leque de raças ideais para o serviço é amplo, porque a escolha precisa ser feita especificamente para o perfil do tutor. Além do quadro clínico, o animal também precisa estar alinhado com o porte físico da pessoa.

Os cães são treinados para a deep pressure therapy (terapia de pressão profunda). Em uma situação de crise ou dor, o cachorro deita sobre o condutor. O procedimento acalma a pessoa.

O pelagem dos animais também faz diferença, uma vez que cada paciente reage de uma forma aos mais variados tipos de texturas, entre elas os pelos dos pets. Autistas, geralmente, apresentam a parte sensorial bastante aguçada.

Energia

No caso de autistas, é necessária uma avaliação especializada de psicólogo para a escolha da raça. Outro aspecto é o nível de energia dos cães. Animais muito energéticos não devem ser dirigidos para pessoas com rotina calma.

O suporte oferecido pelos cães não é, de fato, emocional. “Ele é treinado especificamente para me ajudar, na prática. Ele não está lá para me fazer carinho”, explicou Skyler. “Ele alerta se eu estiver me machucando em uma crise, por exemplo. Um autista muitas vezes não percebe que está se machucando”, comentou o rapaz.

O cão precisa estar focado no tutor. Não pode ter contato com outras pessoas ou ser ser acariciado pelo público em geral. “Ele não está ali para ser entretenimento. O treinamento dele é para ajudar a pessoa com deficiência”, resumiu.

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A estudante de medicina veterinária Betina Wendhausen Cavallazzi Gomes, de 21 anos, compartilha a visão de Arthur. Ela enfrenta ansiedade e depressão, e com o apoio da cachorra Kaira, sem raça definida, encontra equilíbrio.

Arthur é o treinador de Kaira. Eles treinaram em um centro comercial no dia do episódio no metrô, pouco antes do incidente. E aula era para ensinar Kaira a se portar em público.


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Betina buscou diversos métodos para enfrentar a doença. “Mas a Kaira foi a melhor opção”, comemora. A cachorrinha alerta a tutora antes das crises. “Tem vezes que eu estou tão ansiosa, tão absorvida dentro de mim mesma, que não percebo. Então ela me alerta e me ajuda a manejar essas crises. Ela faz a deep pressure therapy“, contou.

“Às vezes eu choro e ela lambe o meu rosto. Ela fica perto de mim. A sensação do pelo dela vai me acalmando”, assinalou. Kaira ainda está em processo de formação para ser, oficialmente, uma cadela de serviço.

Kaira mudou a vida da estudante. Betina era uma pessoa muito reprimida, segundo ela mesma se define. “Estar com ela, tê-la ao meu lado, me faz ter esperança de ter um futuro melhor e uma independência que eu nunca achei que eu poderia ter”, contou.

Empatia

Para Betina, a regulamentação e reconhecimento da prática é fundamental. Atualmente, ela transita dependendo da empatia das pessoas. Por exemplo, para entrar em um ônibus depende da concordância do motorista.

“Se eu vou para um restaurante ou algum lugar, tenho que me preocupar se eu vou mudar os meus planos ou passar por uma situação constrangedora por estar com ela, quando ela está lá para me trazer calmaria”, lamentou.

Segundo a estudante, a legislação precisa evoluir para assegurar esse direito para quem precisar deste recurso. “É preciso dar luz e voz para as pessoas. E esta é uma nova chance de independência para as pessoas”, ressaltou.

Mudando as leis

Iniciativas para regulamentar e reconhecer legalmente o cão de serviço ganharam fôlego tramitam no Congresso Nacional e na Câmara Legislativa do DF (CLDF). No DF, o projeto é de autoria do deputado distrital Iolando Almeida (PSC). No Câmara Federal, as propostas são dos deputados Marreca Filho (Patriota-MA) e Fred Costa (Patriota-MA).

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da CLDF, deputado Fábio Felix (PSol), lamenta a postura do Metrô-DF no episódio envolvendo Arthur e Atlas. O parlamentar avalia ações e alternativas para garantir a inclusão e o acesso de cães de serviço ao sistema de transporte público e outros locais do DF.

“O episódio que causou constrangimento e humilhação a uma pessoa no espectro autista e seu cão de serviço foi uma clara violação ao direito humano à acessibilidade. Esperamos que a instituição reveja seus protocolos de inclusão, respeite as leis e realize uma formação mais qualificada dos profissionais do Metrô”, comentou.

O outro lado

Em resposta ao caso ocorrido no sábado, o Metrô-DF disse que o usuário não foi impedido de entrar no sistema e como o Regulamento de Transporte de Tráfego e Segurança (RTTS) não prevê transporte de cão de serviço, mas de cão guia, o segurança precisou checar as informações com a área responsável.

“Por esse motivo, o usuário precisou aguardar na linha de bloqueio por cerca de 20 minutos. Posteriormente, o embarque foi autorizado. A Companhia informa, ainda, que a equipe está sendo orientada para que o atendimento a casos análogos tenham respostas mais ágeis”, ressaltou o Metrô-DF.

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