Escola militarizada denuncia censura em trabalho de Consciência Negra

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Uma escola pública do Distrito Federal, localizada na Cidade Estrutural, denuncia que policiais militares teriam tentado censurar trabalhos de alunos feitos para o Dia da Consciência Negra, celebrado no último sábado (20/11). A unidade é o Colégio Cívico Militar – CED 01 da Estrutural, que funciona com o modelo compartilhado de ensino militarizado.

De acordo com a vice-diretora do colégio, Luciana Pain, na última sexta-feira (19/11), alunos do 8º e 9º ano do ensino fundamental e do 1º, 2º e 3º do ensino médio expuseram pela escola cartazes relacionados à data. Além de homenagens a personalidades negras, os estudantes fixaram desenhos, textos e charges que falam sobre racismo e discriminação – alguns deles com duras críticas à violência policial contra a comunidade negra.

Veja algumas imagens dos murais:


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Na segunda-feira (22/11), segundo Luciana, o diretor disciplinar da escola, tenente Araújo, teria pedido para que os murais fossem retirados. “Eu disse que não tiraria. A escola não vai censurar o trabalho de alunos”, disse a vice-diretora.

“São cartazes elaborados pelos alunos sobre a Consciência Negra. Os estudantes entendem a violência institucional, não é uma agressão à polícia que está dentro da escola, é uma realidade que eles vivem.”

“Quando o tenente, que é o diretor disciplinar da escola, me procurou eu falei: ‘Use isso como oportunidade para conversar com os alunos, vamos juntá-los na quadra, vamos debater o tema’. E ele disse que iria remeter aos superiores dele”, completa Luciana Pain.

De acordo com a educadora, o trabalho dos alunos foi além da exposição nos murais da escola. “Não falava só de violência policial. Os alunos pegaram charges na internet e debateram, montaram cartazes que têm textos escritos por eles, pegaram várias situações de violência contra negros e montaram o mural”, conta.

“A escola está toda com cartazes espalhados. Nós trabalhamos o tema, fizemos uma roda de capoeira, trabalhamos a beleza negra, fizemos um desfile, trouxemos uma aluna que é do Quênia para trançar os cabelos das meninas. O tema foi todo trabalhado, e agora querem que a gente tire os cartazes”, narra a gestora do colégio.

Polêmica

Nesta quarta-feira (24/11), o deputado federal Heitor Freire (PSL-CE) foi à escola após ser informado por policiais do Ceará, seu estado de origem, sobre o teor dos cartazes. Em sessão no plenário da Câmara dos Deputados nesta quarta, o parlamentar disse que denunciará o caso à Secretaria de Educação e ao Ministério Público, por considerar algumas exposições ofensivas. Ele ainda afirmou que foi mal atendido pela direção do colégio.

“O que eu vi foram muitas ofensas aos policiais militares, às polícias de todo o Brasil. Ali, retrataram policiais militares como racistas, ditadores, nazistas, algo altamente ofensivo”, afirmou o deputado.

No Instagram, o político compartilhou vídeo mostrando algumas das imagens fixadas no mural que criticam a violência policial contra pessoas negras. Para ele, “estão retratando policiais em atitudes criminosas, totalmente incompatíveis com a da realidade das ruas”.

 

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Uma publicação compartilhada por Heitor Freire (@heitorfreire)

“Eu disse para ela (vice-diretora da escola) que essa situação não ficará impune. Ou seja, que todas as devidas denúncias serão feitas ao Ministério Público, à Secretaria de Educação e ao Governo do Distrito Federal”, informou o deputado federal à reportagem.

Luciana Pain, por outro lado, diz que o parlamentar a ameaçou. “Entrou na escola, me agrediu com palavras, disse que faria de tudo para me tirar da escola, que iria me derrubar e que eu tinha que retirar os cartazes imediatamente.”

“O mural não é sobre esse tema [violência policial]. Tem vários cartazes na escola, tem palavras africanas,  trabalhamos personalidades negras”, comenta ela. “Esse não era o assunto principal, o assunto era a Consciência Negra. Foi um trabalho elaborado pelos estudantes a partir da pesquisa deles, que são em sua maioria negros que estão em região de periferia e que sofrem essas violências”, acrescenta a gestora do CED 01 da Estrutural.

CLDF pede apuração

Também nesta quarta-feira, o deputado distrital Fábio Felix (PSol) comentou, no plenário da Câmara Legislativa do DF (CLDF), que a Comissão de Direitos Humanos recebeu denúncia sobre a suposta censura e encaminhará ofício à Corregedoria da Polícia Militar do DF e ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).

“Um deputado federal de outro estado foi à escola militarizada, ameaçando os professores, dizendo que iria denunciá-los, impedindo a sua autonomia pedagógica e nós não podemos tolerar isso. Além disso, alguns policiais que trabalham na escola também tentaram cercear o trabalho, que refletia sobre a cultura racista que é institucionalizada”, assinalou Felix.

“Eles (os cartazes) problematizavam ações policiais que, do ponto de vista do trabalho daqueles alunos, eram racistas […] Aquele trabalho foi censurado na escola”, criticou o distrital.

O outro lado

Em nota, a Secretaria de Educação disse que “considera preocupante o fato de um estudante ter a imagem das Forças de Segurança associada ao racismo ou ao nazismo e acha importante que o tema seja debatido durante o processo pedagógico”.

“A Secretaria de Segurança Pública assegura que esta não é a realidade da Polícia Militar do Distrito Federal, que em 2020, foi considerada a menos violenta do Brasil, de acordo com o Monitor da Violência, uma parceria do portal de notícias G1 com o Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A corporação tem como missão proteger e servir indistintamente a todos os cidadãos”, diz o texto.

“As duas secretarias vão aprofundar a parceria em prol da educação pública, ampliando os espaços de diálogo com estudantes, pais, professores e gestores”, conclui.

O Metrópoles também procurou a PMDF para um posicionamento. Em nota, a corporação negou que tenha havido qualquer tipo de censura pedagógica no CED 1 da Estrutural. “Não houve em nenhum momento o pedido para retirada dos cartazes do mural. Houve sim uma consulta junto a direção da escola sobre o tema abordado, uma vez que não condiz com a realidade e a decisão ter sido tomada de maneira unilateral, sem qualquer diálogo com a coordenação disciplinar que faz parte da gestão compartilhada da escola”, disse a PM.

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