Doria volta a incorrer no erro de querer trocar vacinas por votos

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Além de mortos e infectados, o combate à pandemia continua a produzir vítimas de outra natureza. O governador João Doria (PSDB), de São Paulo, não se cansa de ser uma delas, não só porque seus adversários não o perdoam por ter sido o pioneiro da vacinação no país, mas também por culpa dele mesmo.

Doria pode ser um bom administrador, mas é um mau político. Só faltava São Paulo, o mais rico estado do país, dispor também dos mais hábeis políticos. Diz-se o mesmo dos Estados Unidos, a maior potência econômica do mundo, ameaçado de perder o título para a China. Só faltava que dispusesse dos melhores diplomatas.

Pesquisas em série conferiram: se você pergunta em São Paulo o que por lá se acha de Doria ter trazido a vacina contra a Covid para o Brasil, o elogio é quase unânime. Se perguntar se votará nele por isso ou por qualquer outra razão, o percentual de respostas “sim” é baixo. Vale para a vacina e qualquer outro tema.

A segurança pública em São Paulo melhorou nos últimos dois anos? A resposta majoritária é que “sim”. À mesma pergunta, formulada assim: “A segurança pública em São Paulo melhorou no governo Doria?”, o “sim” deixa de ser a resposta majoritária. É grande a má vontade paulista com ele. Culpa de quem?

De Doria. No caso da pandemia, colou em Doria a acusação de que  tentou aproveitar-se da desgraça alheia para faturar votos. Diga lá: qual o político que dá um só passo sem pensar em faturar votos? Todos agem da mesma maneira, e nem sempre são mal avaliados por isso. Doria é mal avaliado por pensar assim.

O político que introduziu a vacinação no país no início do ano passado é o mesmo que introduziu no país, ontem, a vacinação de crianças, um menino da etnia xavante.  Dá-se, porém, que incorreu outra vez no erro de querer dividir com o menino o protagonismo que dividiu com a enfermeira vacinada há um ano.

O menino não tem idade para ser candidato a nada. A enfermeira tem, e está sendo sondada pelo MDB para ser candidata a deputada federal. A enfermeira e o menino viraram celebridades graças a Doria. E ele, saco de pancadas. O Jornal Nacional ignorou sua presença no ato de vacinação do pequeno xavante.

Contra todas as evidências até aqui, e embora rasteje nas pesquisas de intenção de voto, Doria acredita que tem chances de suceder Bolsonaro. Não dá a menor indicação de que poderá desistir de concorrer. Fica com a conversa de que só lá para agosto, setembro, o quadro eleitoral ganhará clareza, mas que irá até o fim.

Irá porque não tem outro jeito. Não tem como recuar. Se Lula, o líder das pesquisas, concluísse que não deveria ser candidato, não seria difícil compreender. De mulher nova, livre das condenações que mancharam sua biografia, por que expor-se novamente? Por que não desfrutar em paz dos seus últimos anos de vida?

Se Bolsonaro concluir que a derrota é certa, alegar problemas de saúde e renunciar à disputa, pelo menos seus seguidores lhe darão razão. Doria, não. Ele não tem para onde correr. Não poderá continuar no governo porque o PSDB já lançou um nome à sua vaga. A vaga de senador na chapa será de outro partido.

Candidato a presidente, apesar de derrotado, continuará em cena. Quem diria que depois de governar São Paulo quatro vezes e de perder duas eleições presidenciais, Alckmin estaria de volta na condição de vice na chapa de Lula que o derrotou em 2006? A morte na política é mais demorada do que a morte na vida real.

Doria sabe disso. Talvez aprenda que a pressa e a traição são os maiores inimigos do político.

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