Metaverso, John Lennon, Cripto e Você

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Há mais ou menos 4 anos escrevi um artigo sobre realidade aumentada e realidade virtual. Na época eu falava um pouco sobre as vantagens e os potenciais problemas que uma vida imersiva e virtual poderia trazer para a humanidade. Na verdade ainda estamos um pouco distantes de ambos os cenários: distopia e utopia. 

O mundo girou, Spielberg fez um filme que explorava o conceito de distopia (Ready Player One) com happy ending e plataformas como Roblox mostram como, apesar de tudo, a humanidade tende a mostrar a sua pior face, crueldade, raiva e frustração, em ambientes assim. 

O Facebook há tempos flerta com a questão da realidade virtual. Em 2014, comprou a Oculus com o objetivo de se posicionar nesse universo. A verdade é que, até este momento, muito pouca coisa aconteceu. A última foi a parceria com a Ray-Ban, criando um óculos “creepy” que pode ser um espião desautorizado da realidade. 

Depois de crises e mais crises envolvendo manipulação de pessoas por meio das fake news propagadas nas suas plataformas, amparadas na falácia da liberdade de expressão; denúncias de transtornos em adolescentes fomentados e amplificados no Instagram com o seu conhecimento; e uma erosão de imagem como poucas vezes vista, o Facebook muda seu nome para Meta e declara seu plano de ser o vetor da adoção e crescimento do Metaverso. Uma nova fronteira para a humanidade. Um lugar democrático, mágico, onde as pessoas poderão viver momentos e experiências somente realizáveis em um ambiente de fantasia, virtual. Um lugar onde as limitações humanas não existirão. 

Qual é o downside? Viver uma vida que não existe. John Lennon disse que a vida é o que acontece enquanto fazemos planos. Merece um update: Vida é o que acontece enquanto você está no metaverso. 

Na verdade, não sou contra a chegada da realidade aumentada e realidade virtual. Acho que temos ganhos incríveis nas dinâmicas de educação, treinamento, entretenimento e exploração de temas e assuntos que só são possíveis de ser experimentados nesses formatos (como uma viagem para outro planeta, por exemplo).  

Acho que é um excelente simulador, só isso. Uma preparação ou uma pausa para a vida de verdade. 

A vida é para ser vivida de forma sinestésica, com todos os sentidos em full mode. Mesmo com uma evolução para implantes neurais que estimulam de forma sintética as sensações físicas. Isso não é vida. É simulacro. Bom para ser usado em quantidades homeopáticas.  

Mas falando do ex-Face now-Meta, é uma saída bastante esperta do Mark, que está exercendo aquela máxima do “Quando você não gosta do assunto, você não tenta argumentar, você muda o assunto”.  Vamos ver no que dá. Acho que ele tem vários competidores mais inovadores e mais capazes, com track record em software e hardware que podem competir com soluções no mesmo caminho (Apple e Microsoft). Veremos. 

Mas tem algo neste novo mundo que, na minha opinião, veio para ficar. Estou falando de criptoativos.  

Não podemos esquecer: moedas são essencialmente convenções, a partir do momento em que se abandonou o padrão ouro como elemento de referência. 

Quando o Bitcoin nasceu, precisamente no dia 31 de outubro de 2008 por meio do paper de Satoshi Nakamoto Bitcoin: a Peer-to-Peer Electronic Cash System, trouxe a ideia de um “dinheiro eletrônico totalmente descentralizado e peer-to-peer, sem a necessidade de um terceiro fiduciário”. De lá para cá, mais do que uma moeda, criou-se um novo ecossistema que não se submete ao sistema tradicional. Sucessivas quebras, erosão de valor e especulação sem limite formam a base dessa teoria, de que o valor deve ser democratizado e descentralizado. 

Nas palavras do pai do valuation, Aswath Damodaran, as criptomoedas estão ganhando o mundo porque estão sendo lastreadas em uma questão geracional. A moçada não acredita no sistema tradicional e, por isso, vê o mundo cripto como uma resposta “sua” ao status quo. Uma rebeldia trilionária e transformadora. 

Hoje um Bitcoin vale R$ 320.778,00. Um Ethereum vale R$ 23.780,00. Extremamente voláteis, é verdade, mas em um caminho de crescimento e consolidação como reserva de valor. E quanto mais se acredita e se investe, mais vira verdade. 

Da demanda das criptomoedas nasceu uma tecnologia digital incorruptível capaz de criar as bases para as trocas e exchanges com risco reduzido (blockchain). NFTs prometem reestabelecer o valor da propriedade intelectual vilipendiada pela desmaterialização e digitalização. O som “original” do piano de Imagine tocado por John Lennon (olha ele aqui de novo) pode ser seu, porque vem protegido por um NFT.  

No futuro, você vai poder criar a sua própria moeda, se quiser e se puder. Já imaginou? Ou você vai escolher pagar por algum produto ou serviço com pix, cartão de crédito ou cripto.  

No paralelo, produtos de investimento como fundos com exposição em criptoativos ganham o mercado investidor, moedas são criadas e lançadas, tokenização de valores mobiliários sendo introduzidos, marketplaces de criptoativos começam a penetrar no estilo e vida das pessoas com patrocínios na F1, comerciais com estrelas de Hollywood e de arenas esportivas. Entrar no dia a dia das pessoas é também democratizar a presença. 

O Meta olha para isso também. A segurança e a liberdade do seu universo paralelo virtual, com o modelo tradicional da publicidade agora convergindo para algo imaterial (pagos com Libra, sua criptomoeda). Já outras criptomoedas me parecem cada vez mais presentes na vida real, quebrando paradigmas e penetrando no tecido cultural da sociedade. 

Se a neo Meta vai cada vez mais se apropriando do “fazendo planos” da frase de Lennon, as critomoedas se fazem a cada dia mais presentes no “a vida é o que acontece”. 

Eu fico com a segunda parte. 


Rodrigo Cerveira atua há 20 anos em estratégia, liderança e desenvolvimento de negócios internacionais. Atualmente é CMO da Vórtx.

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