Recanto do Pará guarda tradição do Norte na Feira da Torre

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A comida amazônica é a minha favorita. Pudera. Cresci na cozinha da minha avó, comendo farinha d´água, tacacá, açaí, cupuaçu. Passei anos roubando os camarões salgados que ela colocava em um tabuleiro na janela da cozinha para terminarem de secar. Um belo dia, achei que a pimenta murupi era uma frutinha doce. Berrei, me desesperei e corri por todo apartamento atrás de alívio.

Minha avó me ensinou a preparar o pato no tucupi certa vez. “Precisa assar antes, senão não presta”, me disse com aquele sotaque que puxa o “s”. No entanto, eu nunca ousei mexer na receita dela. Não tenho coragem de preparar essa iguaria porque sei que vou falhar miseravelmente. O dela era a perfeita harmonia de sabores, entre a acidez do caldo, a gordura da ave e a surpresa causada pelos ramos de jambu. Dona Laura faz falta por muitos motivos, mas especialmente pela comida que preparava aos domingos para toda a família.

Daí, quando bate aquela saudade, eu tenho endereço certo para ir: a Feira da Torre. Me refugio naquela praça de alimentação popular para me acabar de comer no Recanto do Pará. Há dois motivos para eu gostar tanto desse lugar. O primeiro é que minha avó amava o que era servido neste lugar tão simples, mas tão especial. O segundo é que a comida dali é a mais parecida com a que ela fazia.

Quem toca o negócio é a paraense Varlene Matos. Desde 1984, ela ocupa um dos espaços da feira, que reúne ainda comida de outras localidades. Essa história começou, no entanto, na falecida Festa dos Estados. Viúva e com três filhos para criar, ela trabalhava na representação do governo paraense em Brasília e se colocava como voluntária nos dias do evento, para ganhar folga e “poder ficar mais tempo com os meninos”. Foi assim que aprendeu a fazer os pratos com Dona Jacirema, cozinheira de mão cheia e sabedora da tradição amazônica.

De lá para cá, foram muitas outras Festas dos Estados, uma versão menor do empreendimento na Feira do Guará, filhos crescidos e formados. Não me lembro de ter ido na torre e de não ter encontrado a Varlene por lá. A labuta é diária, seja cozinhando, atendendo no balcão ou conversando com os clientes.

De comer

Invariavelmente vou ao local na hora do almoço e prefiro nem tomar café da manhã, que é para ter mais espaço no estômago para apreciar as delícias. O primeiro pedido é sempre o tacacá (R$ 45). Varlene já sabe que é com goma, porque eu sempre digo que sem ela o prato não tem a menor graça. Espécie de sopa servida numa cuia, para se tomar nela mesma, sem colher, o prato leva ainda tucupi, camarões secos, jambu e a tal da goma que tem aspecto não muito convidativo, mas é deliciosa. E, claro, não pode faltar molho de pimenta.

Depois é a vez da carne de caranguejo (R$ 48) desfiada e bem temperadinha, que vem junto com uma farofinha crocante. É só espremer o limãozinho por cima e ser feliz. Para terminar a parte salgada, vem o pato com bastante jambu e arroz.


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Quem quiser variar, pode pedir a maniçoba (R$ 90), elaborada com a folha da mandioca brava, também conhecida como maniva. O ingrediente é cozido por horas, devido a presença de ácido cianídrico na planta. Dentro vão nacos de carne suína e embutidos, assim como na feijoada. Bonita não é, mas pense num prato bom de comer.

Outras coisas que fazem sucesso no Recanto do Pará são o açaí purinho (R$ 28), servido com farinha de tapioca; e o creme de cupuaçu (R$ 25), azedinho na medida certa. Ainda tem geleias para levar pra casa, como a de cupuaçu com pimenta (R$ 38).

Eu sei que os sabores intensos e muito peculiares podem ainda assustar quem não tem intimidade, embora esta cozinha já tenha ganhado o Brasil, primeiramente com o chef Paulo Martins, muitos anos atrás, e com a migração para outros Estados. Porém, ainda falta bastante para se dar valor a uma comida como a servida pela Varlene.

Escrevi este texto, querendo instigar o leitor a provar. Espero que não tenha sido em vão.

Serviço:
Recanto do Pará
Endereço: Feira da Tore de TV
Telefone: (61) 8177-3483
@recanto_do_para_varlene

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