O Centrão está com uma saudade danada dos tempos do petrolão

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Se quer ajudar os brasileiros mais pobres – 33,1 milhões deles que passam fome, outros tantos desempregados ou subempregados -, por que o governo não o faz abdicando de parte do lucro bilionário a que tem direito como maior acionista da Petrobras?

De 2019 para cá, o governo recebeu R$ 447 bilhões da estatal, entre impostos, royalties e dividendos. Ontem, receberia mais R$ 8,8 bilhões. Essa cifra faz parte de um total de R$ 32 bilhões apenas em dividendos que serão pagos ao governo até julho.

Se não pode abrir mão de parte dos lucros da Petrobras para socorrer os mais pobres, por que não subtrai o dinheiro necessário aos mais ricos entre os mais ricos? Há várias maneiras de se fazer isso. O Brasil é um dos países com maior desigualdade de renda.

Bolsonaro não irá por aí porque sua preocupação com os pobres é episódica. É preciso conquistá-los ou diminuir sua rejeição entre eles para ter chances de se reeleger, mas ao mesmo tempo não pode arriscar-se a perder o apoio do topo da pirâmide social.

Então, como sempre, tenta jogar a culpa da situação nas costas dos outros – no presente caso, da Petrobras, com sua política de reajuste dos preços de combustíveis atrelada à variação do preço do barril de petróleo no mercado internacional.

O problema não está no atrelamento, um mecanismo realista de defesa da empresa, de vez que o Brasil não produz todo o petróleo que consome. O problema está na maneira como o governo aplica o dinheiro que arrecada por meio de impostos e de outros ganhos.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), mira em outra direção ao anunciar que o governo estuda enviar uma Medida Provisória para modificar a Lei das Estatais. Segundo ele, é preciso mais “sinergia entre as estatais e o governo do momento”.

Medidas Provisórias têm efeito imediato, mas carecem de referendo pelo Congresso. O governo costuma valer-se delas em momentos de aperto. A impopularidade de Bolsonaro é muito alta e a permanecer assim ele será derrotado por Lula.

Não é isso, porém, o que mais aflige Lira e a turma do Centrão. Se Bolsonaro se reeleger, está ok. Do contrário, eles sobreviverão de qualquer jeito. Mais fracos, talvez, mas não o bastante. Saberão a hora certa para abandonar Bolsonaro e ir cuidar da própria vida.

Sancionada pelo ex-presidente Michel Temer, a Lei das Estatais é considerada um marco na governança das empresas de capital misto, como a Petrobras. Ela reduziu o risco dessas empresas serem usadas como braços partidários do governo de ocasião.

Lira e o Centrão aproveitam o momento de extrema fragilidade de Bolsonaro para ensaiar um escandaloso passo atrás na gestão da coisa pública. Certamente, saudades dos tempos do petrolão quando todos eles se deram bem, e os brasileiros mal.

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