Micróbios inéditos e com potencial pandêmico são encontrados no Tibete

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As geleiras são um essencial e gigantesco registro da evolução do planeta, além de ser o inventário único da diversidade genética microbiana. Nas geleiras no Platô Tibetano, cientistas conseguiram dar uma dimensão disto, ao descobrir mais de 900 espécies de micróbios desconhecidos à ciência até agora.

Um estudo divulgado pela revista científica Nature, na segunda-feira (27/6), analisou os genomas dos microorganismos e determinou que eles têm potencial para causar novas pandemias caso as mudanças climáticas derretam o gelo e libertem possíveis patógenos na natureza.


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Para isso, especialistas da Academia de Ciências Chinesa coletaram amostras de 21 geleiras na região de grande altitude na Ásia, entre as montanhas do Himalaia, ao Sul, e o deserto Taklamakan, ao Norte. Esta foi a primeira vez que uma cultura microbiana dentro de uma geleira foi sequenciada geneticamente.

O DNA dos micróbios foi sequenciado dentro do gelo, criando uma base de dados genômica chamada Catálogo Tibetano de Genes e Genomas (TG2G).

Foram 968 espécies de micróbios identificados pelos cientistas. A maioria se trata de bactérias, mas existem também algas, arqueias e fungos.

O estudo explica que, embora algumas sejam conhecidas, 98% das espécies encontradas nunca foram vistas antes. Os especialistas sequer esperavam tal resiliência destes organismos em condições tão extremas, que incluem baixíssimas temperaturas, altos níveis de radiação solar, limitação de nutrientes e ciclos periódicos de gelo e degelo.

Em 2020, o mesmo local já havia surpreendido cientistas, com 33 grupos diferentes de vírus vivendo sob o gelo, 28 inéditos à ciência.

De acordo com a publicação, a idade dos microorganismos não é conhecida, mas a ciência consegue reviver micróbios congelados de até 10 mil anos.

Chances de epidemias e pandemias

Essa descoberta, no entanto, é vista como uma “caixa de pandora”. A diversidade de micróbios encontrada no platô causou preocupação por parte dos cientistas. Isso porque com o avanço das mudanças climáticas, o derretimento dessas camadas de gelo pode liberar micróbios perigosos — principalmente bactérias —, com chances de causar epidemias ou até pandemias.

Cerca de 27 mil fatores de virulência foram identificados no catálogo TG2G pelos cientistas. Ou seja: moléculas que ajudam as bactérias a invadir e colonizar potenciais hospedeiros.

47% dos fatores de virulência deles nunca foram vistos antes, logo, os especialistas não nem sabem o quão prejudiciais essas bactérias podem ser.

Mesmo que elas sobrevivam pouco após escapar do gelo, ainda há o risco de que passem seu DNA à frente, os elementos genéticos móveis (MGEs), para outras bactérias. Se microorganismos modernos herdarem genes das bactérias de geleiras, os resultados podem ser preocupantes.

Conforme a humanidade acompanha até o momento a pandemia de Covid-19, é muito fácil imaginar o nível de preocupação destes especialistas.

O Platô Tibetano, especificamente, pode acabar dando origem a pandemias porque ele alimenta o Rio Amarelo, o Yangtze e o Ganges, na China e Índia, respectivamente, e muitas outras vias fluviais, que correm em dois dos países mais populosos do mundo.

Mais de 20 mil geleiras cobrem 10% da massa do planeta Terra, e cada uma delas abriga sua própria colônia microbiana. Análises de satélite do ano passado mostram que quase todas as geleiras estão perdendo gelo de forma acelerada, o que eleva as chances de liberar patógenos perigosos.

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