RJ contabiliza em julho casos brutais de violência contra a mulher

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Rio de Janeiro, 26 de julho. Jovem de 23 anos é morta a tiros no Centro do Rio. A vítima estava junto dos dois filhos, de dois meses e 4 anos, e de uma irmã. O assassino confesso é seu ex-companheiro e pai das crianças, Queven da Silva e Silva, de 26, que alegou uma traição, mesmo com o relacionamento terminado.

O mês de julho de 2022 ficou marcado pela brutalidade constatada em, ao menos, 10 crimes praticados contra mulheres no estado do Rio. Do anestesista que estuprou uma paciente na sala de parto à mulher esfaqueada por um ex-companheiro, os casos noticiados causaram perplexidade pelo grau de violência.

Para Maltida Alonso, coordenadora do Núcleo Especial de Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem), da Defensoria Pública do estado, o cenário vivido é de “muito retrocesso”.

“Quando retrocedemos na educação, na questão de se falar de ideologia de gênero, da violência doméstica, de raça, de educação sexual. Falar desses assuntos prepara. As escolas falarem disso ajuda a evitar coisas que sabemos que podem acontecer. Quando priorizamos esses aspectos, dificultamos esses tipos de ingerência”, afirma Maltida Alonso ao Metrópoles.

São João de Meriti, Baixada Fluminense, 10 de julho. Técnicas de enfermagem do Hospital da Mulher Heloneida Studart, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, denunciam um caso de estupro por parte do anestesista Giovanni Quintella Bezerra, de 31, contra uma parturiente dentro do centro cirúrgico. O crime foi cometido enquanto a paciente estava sedada.

Para a antropóloga e pesquisadora da Fiocruz Fatima Checcheto, a violência é um “recurso muito fácil, ao alcance da mão”. Segundo ela, os homens são recompensados socialmente pelo uso da violência e, hoje, isso se torna mais visível, mas o problema é histórico.

“É possível, no lugar de negociar ou ouvir os argumentos do outro, usar a violência”, aponta. “As expressões das emoções masculinas, como a raiva, não são reprimidas socialmente. Muito pelo contrário, elas são valorizadas”.

Piratininga, Niterói, 26 de julho. Mulher é morta a facadas em Piratininga, região oceânica de Niterói. O corpo foi encontrado próximo à Lagoa de Piratininga com sinais de perfuração. O ex-companheiro e pai dos filhos da vítima, de 3 e 5 anos, Flávio Fonseca, é o principal suspeito pelo crime.

Raquel Marques, presidente da Associação Artemis, ONG que combate a violência contra mulheres, comenta a repetição de crimes brutais registrados recentemente: “Acho que com tanta barbaridade acontecendo, a violência contra a mulher foi normalizada de certa forma. Precisamos voltar de onde paramos, conversar sobre essas pautas para que avancemos”.

“Nós mulheres já tomamos cuidado com muita coisa, evitamos fazer muitas coisas quando sabemos que aquilo pode trazer algum risco. A gente já deixa de ir a lugares, ficamos atentas o tempo todo. Tomamos cuidado com quem a gente fala, com o que a gente veste, para onde a gente vai, com quem a gente vai, mas mesmo assim não estamos livres da violência. Nem mesmo em um centro cirúrgico”, afirma Raquel Marques.

Duque de Caxias, Baixada Fluminense, 18 de julho. Policiais da Delegacia de Atendimento à Mulher de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, prenderam o cirurgião plástico Bolívar Guerrero Silva, acusado de manter uma paciente “apodrecendo” em cárcere privado por dois meses, no hospital particular Santa Branca. Ao menos 12 outros casos de cirurgias mal-sucedidas contra o médico são investigados.

“Um homem colérico, que mostra a sua macheza, sua virilidade, ele de alguma forma recebe apoio social. Essa violência, ela é socialmente valorizada. Então, ele não tem limite. O homem tem uma carta branca para usar o corpo das mulheres e até mesmo de outros homens, colocando naquele corpo marcas da violência, marcas da sua superioridade”, explica a pesquisadora Fatima Checcheto.

“O corpo da mulher e da criança, dos considerados mais fracos, acaba sendo visto pelo homem como uma propriedade sua, porque o homem é autorizado a ‘proteger’, a ‘defender’ esse corpo. A pessoa vira um objeto e uma propriedade desse homem. Então, uma forma dele demonstrar a honra dele, uma maneira que ele encontra de mostrar essa torpeza é a violência. Ele não pode demonstrar fragilidade, então age pela vingança, para atingir o outro”, analisa ela.

Duque de Caxias, Baixada Fluminense, 17 de julho. Homem foi preso acusado de estuprar e manter enteada de 11 anos em cárcere privado por 2 anos, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Devido a possíveis complicações no pós-parto do filho que teve após o estupro, mãe e padrasto da menina a levaram ao Hospital Adão Pereira Nunes. A denúncia foi feita pela unidade de Saúde, que estranhou a situação.

Para a coordenadora do Nudem, Maltida Alonso, é preciso que além dos mecanismos criados – como, por exemplo, a Lei Maria da Penha -, seja investido na formação, capacitação e sensibilização das pessoas para tratar dessas violências.

“É necessário entender que a violência contra a mulher não precisa chegar a uma agressão física, ela pode ser denunciada ainda que tida como algo pequeno, menos gravoso, como xingamentos, violência psicológica ou manipulação. É comum chegar um homem e dizer ‘o que estou fazendo aqui? Eu só bati na minha mulher’. A gente precisa desse olhar”, afirma.

“Precisamos ficar batendo na tecla: é importante, é violação de direitos humanos, é de fundamental importância para o enfrentamento dessa violência a prioridade das políticas públicas em todas as esfera”, acrescenta Alonso.

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