Caras da campanha: os marqueteiros Lima, a dupla Tico e Teco de Bolsonaro

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O desempenho pífio de aliados nas eleições municipais de 2020 e o cerco policial à chamada milícia digital bolsonarista embutiram no círculo próximo de Jair Bolsonaro a certeza de que seria impossível reelegê-lo repetindo a mesma estratégia da campanha de 2018, na qual o hoje presidente tinha apenas 8 segundos de propaganda na TV e 12% do orçamento de seu principal adversário na disputa.

Para este ano, a filiação ao PL e a aliança com outros partidos do Centrão deram a Bolsonaro condições de estruturar melhor a campanha, com mais tempo e mais dinheiro, sem abrir mão do método que alavancou o bolsonarismo, que é a forte atuação nas redes sociais. Esse cenário fez com que o comitê da reeleição tivesse à frente do marketing eleitoral dois publicitários que, por vezes, divergem na estratégia de propaganda.

Duda, o homem de Valdemar

O primeiro deles é Duda Lima (à dir. na foto em destaque), marqueteiro de confiança de Valdemar Costa Neto. Quando Bolsonaro decidiu se filiar ao partido para disputar a reeleição, no fim do ano passado, o dono do PL convocou o publicitário paulista para trabalhar no marketing da campanha. No início, a atuação de Duda provocou enorme atrito com o núcleo duro bolsonarista. Diziam que o marqueteiro não estava nada antenado com a ideologia e os métodos de comunicação do bolsonarismo.

Duda Lima, de 49 anos, é natural da cidade paulista de Mogi das Cruzes, terra de Valdemar, e tem em seu currículo campanhas muito mais modestas, como de parlamentares do próprio PL e de prefeitos da região do ABC. A seu favor, contabiliza duas campanhas vitoriosas contra candidatos petistas no berço do partido de Lula. Mas isso foi em 2016, quando o petismo já estava em crise e o bolsonarismo ainda não era a principal força antagônica.

Com perfil discreto e mais conservador, ele chegou a ser pressionado a deixar a função de marqueteiro da campanha à reeleição pelo vereador Carlos Bolsonaro, filho 02 do presidente e responsável por cuidar das redes sociais do pai. O auge da crise foi em junho, quando o PL apresentou a primeira peça de TV com Bolsonaro, sob o slogan “Sem pandemia, sem corrupção e com Deus no coração, ninguém segura esse novo Brasil”.

A propaganda foi duramente criticada dentro do staff bolsonarista e o slogan idealizado por Duda foi logo alterado depois que a Polícia Federal prendeu Milton Ribeiro, ex-ministro da Educação de Bolsonaro, por suspeita de corrupção. O marqueteiro foi mantido na função após um acordo do senador Flávio Bolsonaro com Valdemar. Hoje ele trabalha exclusivamente na produção dos programas de TV, que só vão ao ar após a aprovação do filho 01 do presidente e coordenador da campanha do pai.

Sérgio, o amigo do 03

Para cuidar da estratégia de comunicação nas redes sociais, tão cara ao bolsonarismo, a campanha preferiu escalar outro publicitário, Sérgio Lima, amigo dos filhos do presidente e considerado um marqueteiro com DNA bolsonarista. Serginho, como é chamado, já havia sido recrutado pelo clã em 2019 para desenvolver a identidade visual do Aliança pelo Brasil, partido conservador que Bolsonaro tentou criar sem sucesso.

Em 2020, ele chegou a ser investigado no inquérito dos atos antidemocráticos, relatado pelo ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal, porque prestou serviços de comunicação digital a quatro deputados bolsonaristas acusados de usarem a cota parlamentar para promover ataques à Corte nas redes sociais.

Filho de um militar que se formou na mesma turma de Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras, em 1977, o carioca Serginho goza de prestígio junto ao clã — ele tem especial proximidade com Eduardo Bolsonaro. Já foi convidado a palestrar nos eventos conservadores promovidos pelo filho 03 do presidente e tem atuado exclusivamente na produção de vídeos da campanha que são impulsionados na internet e distribuídos em grupos do Telegram e WhatsApp.

Esta é a primeira campanha de peso da carreira de Sérgio Lima, que tem 43 anos. Em 2018, ele apenas auxiliou alguns candidatos a deputado federal do PSL. Antes, trabalhava fazendo comunicação para empresas de varejo.

Acesso limitado

Os dois marqueteiros costumam esbarrar em dificuldades de ordem prática para fazer seu trabalho, algo bastante comum na rotina de quem trabalha nas cercanias de Bolsonaro. À diferença do que ocorre usualmente em campanhas presidenciais, a dupla não tem acesso direto ao candidato, por exemplo.

Até recentemente, eram raras as oportunidades em que os dois conseguiam levar suas ideias pessoalmente ao presidente — na maioria das vezes, precisavam de intermediários, segundo fontes da campanha. Quando Duda Lima conseguiu ser convidado, semanas atrás, para entrar no carro presidencial para trocar algumas palavras com Bolsonaro entre uma agenda e outra, o feito foi motivo de comemoração no comitê.

Outro desafio complicado é convencer Bolsonaro a colocar em prática os planos arquitetados pela equipe de marketing. No debate deste domingo na TV Bandeirantes, Duda Lima nem sequer foi aos estúdios. Sérgio Lima estava lá, mas quem mais aconselhou o presidente foram o ministro das Comunicações, Fabio Faria, e o ex-secretário Fabio Wajngarten.

Embora neste ano o marketing da campanha esteja mais profissional que o de quatro anos atrás, Bolsonaro, quase sempre, prefere fazer o que lhe dá na telha — ou o que Carluxo e os assessores de seu gabinete, repleto de radicais, propõem.

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