Elogio às armas e a morte da colegial no Palácio Aclamação (Vitor Hugo

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Diga-se a bem da verdade e de Sua Excelência o Fato – frase do estadista francês, Charles de Gaulle, que o falecido político brasileiro, Ulysses Guimarães, costumava repetir – raramente um crime violento, de consequências trágicas (políticas, inclusive), impossíveis ainda de avaliar, foi capaz de reunir tantos elementos simbólicos da perda de rumos e da miséria moral e social que o país atravessa, quanto a morte, com um tiro no peito, da jovem Cristal Rodrigues Pacheco, de 15 anos, em Salvador, quando caminhava para a escola, no tradicional Colégio das Mercês. nas proximidades de sua casa, com a mãe e uma irmã de 12 anos. Uma assaltante, presa quinta-feira, 4, atirou na adolescente na calçada do histórico Palácio da Aclamação (de despachos e recepções do governo da Bahia), vizinho do Quartel dos Aflitos (QG da PM). Desgraçadamente, no mesmo dia, 2 de agosto, que os meios de comunicação repercutiam o elogio apologético ao aumento da venda de armas no Brasil, feito na véspera pelo mandatário do Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro.

Mas não param aí os elementos emblemáticos deste triste episódio que a sociedade, acuada e atônita, está sendo obrigada a suportar, quase imobilizada de horror. Embora – dignamente – Salvador viu acontecer o primeiro movimento expressivo de rua, contra a violência. Estudantes, colegas, amigos e parentes da colegial assassinada, e gente do povo protestaram nas na área do crime, contra a insegurança, desvario das ações criminosas, a venda de armas e em defesa do “Desarmamento Já”. Um alento de coragem e resistência da sociedade no meio do caos e da complacente impunidade vigente.

O fato jornalístico precisa ser contextualizado, para dar inteireza à informação e tornar o seu entendimento o mais completo possível, como ensinava o jornalista Juarez Bahia, mestre em teoria e prática da comunicação de várias gerações. Assim, acrescente-se: Quem conhece minimamente Salvador e seus pontos de atração (histórica, política, turística e cultural) sabe que o local onde Cristal foi baleada e morta – “encostada na parede, caindo lentamente até o chão, segundo relato comovente da mãe, dona Sandra, à TV Bahia (Globo) – fica a cerca de 500 metros de distância de pelo menos seis sítios urbanos simbólicos da Cidade da Bahia (no dizer de Jorge Amado) e d os milhares de turistas do país e do mundo que a visitam.

Nos fundos do histórico e majestoso Palácio da Aclamação fica o Passeio Público, antigo jardim do palácio, belo recanto de árvores centenárias e fauna protegida. Também o Teatro Vila Velha, que dispensa apresentação aos que vivem ou visitaram Salvador, nos últimos 50 anos, palco de memoráveis espetáculos de artistas da terra e nacionais, de memoráveis representações teatrais, e onde o revolucionário movimento Tropicalista deu os primeiros passos. Mais adiante está o Hotel da Bahia, pioneiro dos grandes hotéis do país, que hospedou grandes políticos, chefes de estado e celebridades estrangeiras e nacionais. Na lateral do hotel, localiza-se a Praça do Campo Grande, dos monumentos do Caboclo e da Cabocla, dos festejos ao 2 de Julho, heróis simbólicos das lutas da Independência do Brasil na Bahia. Estes são os fatos, o cenário e o contexto em torno do assassinato de Cristal Pacheco, que tombou com um tiro da assaltante à caminho da escola. O resto o tempo, senhor da razão, dirá.

 

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitors.h@uol.com.br

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