Servidores públicos ligados a chefe do União Brasil doaram ao partido

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O diretório paulistano do União Brasil recebeu doações nesta eleição de funcionários públicos que trabalham diretamente para o presidente municipal da sigla, o vereador Milton Leite, ou estão lotados em órgãos da Prefeitura de São Paulo e do governo estadual sobre os quais Leite exerce influência. As doações correspondem a parcelas expressivas dos salários mensais desses servidores.

Boa parte dos recursos foi direcionada pelo União Brasil para financiar candidaturas do MBL no estado. Contrário ao uso de dinheiro público em campanhas, o grupo afirmou à coluna que devolveu toda a verba para o partido.

O MBL filiou todos os seus candidatos em São Paulo ao União Brasil. O jornalista Artur Rodrigues revelou, na semana passada, que a candidatura à reeleição de Kim Kataguiri a deputado federal recebeu cerca de R$ 200 mil em doações de pessoas que ocupam cargos políticos no estado e na capital. Kataguiri disse ao repórter que esses repasses foram feitos à sua campanha por engano e publicou no Twitter um comprovante com a devolução do dinheiro.

No entanto, a coluna constatou em registros da Justiça Eleitoral que as campanhas dos outros quatro candidatos do MBL — o movimento tem no total cinco nomes na disputa — também receberam dinheiro doado por servidores públicos.

O cientista político Renato Battista, apoiado pelo ex-deputado Arthur do Val, o Mamãe Falei, e que tenta ser seu sucessor na Assembleia de São Paulo (Alesp), recebeu, segundo declarado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), R$ 71,2 mil de 17 funcionários lotados na máquina pública.

Cristiano Beraldo, candidato a deputado federal, ganhou R$ 147 mil, doados por 26 servidores.

Amanda Vettorazzo, que concorre como deputada estadual, recebeu R$ 12,6 mil de três servidores. Já Guto Zaccarias, outro candidato à Assembleia de São Paulo, obteve R$ 9,4 mil das doações direcionadas ao partido por outros três.

As doações ao União Brasil que irrigaram o MBL vêm de setores específicos da máquina pública. Seis funcionários do gabinete de Milton Leite, presidente da Câmara de Vereadores, estão listados entre os doadores, o que representa um terço de toda sua equipe. Cada funcionário doou, em média, metade do salário bruto pago pela Casa. Entre eles está o chefe de gabinete de Leite, Silvio Azevedo, que doou R$ 11,3 mil — seu vencimento mensal é de R$ 23,3 mil. Como a Câmara não divulga o rendimento líquido, na prática a fatia do salário repassado à legenda foi mais que a metade do que recebem.

Seis assessores lotados no Departamento de Ação Social da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e seis funcionários que trabalham na São Paulo Transporte (SPTrans) doaram ao partido. Os dois órgãos compõem a Secretaria municipal de Mobilidade e Trânsito, que era chefiada até julho por Ricardo Teixeira, um vereador do União Brasil que integra a direção municipal da sigla. A indicação de Teixeira foi um acordo entre Leite e o prefeito Ricardo Nunes, do MDB.

Os doadores que trabalham no Departamento de Ação Social da CET doaram ao União Brasil de 37% a 41% de seus salários brutos mensais. Já as servidoras da SPTrans fizeram repasses que alcançavam quase 30% dos vencimentos brutos.

Os dados do TSE mostraram ainda pagamentos feitos por dois funcionários que trabalham para o União Brasil na Alesp, uma como assessora especial do partido na Casa e outro como assessor da liderança da legenda. Há também um assistente parlamentar lotado no gabinete do deputado estadual Milton Leite Filho.

No Executivo estadual, houve doação de dois servidores da Artesp, a agência de transportes do estado, que é ligada à Secretaria Estadual de Logística e Transportes. O secretário, João Octaviano Machado Neto, também foi uma indicação de Leite, no início do governo de João Doria. Anteriormente, Machado Neto chefiou a CET e foi secretário municipal de Mobilidade.

Um dos servidores da Artesp que doaram, Manoel do Carmo Rodrigues dos Santos Filho, fez três repasses à legenda, de R$ 4 mil cada. Os valores são maiores do que o salário líquido mensal que ele ganha, de R$ 3,8 mil. O pai desse servidor, Manoel do Carmo Rodrigues dos Santos, é assessor da presidência da Dersa, empresa responsável pelas rodovias estaduais, e fez doações ao partido de R$ 9,2 mil em julho, agosto e setembro. O valor representa 63,3% de seu salário líquido, de R$ 14,5 mil mensais.

O outro doador da Artesp, o superintendente Reonaldo Raitz Leandro, fez dois repasses de R$ 5,2 mil para o diretório municipal, embora tenha remuneração líquida de R$ 8,9 mil. A quantia doada corresponde a 58% do salário mensal. Raitz Leandro é advogado e defendeu Milton Leite em ações na Justiça de São Paulo. Ele também foi investigado pelo Ministério Público estadual no escândalo da Indústria das Multas, em 2020.

Os cinco candidatos do MBL são os únicos nomes expressivos do União Brasil que receberam verba proveniente do diretório municipal de São Paulo. Além deles, o União Brasil na cidade destinou R$ 200,3 mil ao ex-prefeito de São Caetano Paulo Pinheiro.

O MBL comanda a vice-presidência do União Brasil em São Paulo, por meio do vereador Rubinho Nunes. Ele seria candidato a deputado federal nesta eleição, mas anunciou a desistência no dia 17 de agosto.

Procurado, o MBL afirmou que todas as doações feitas por servidores foram devolvidas na semana passada. O grupo enviou comprovantes das devoluções e disse que não pediu a verba. “Não solicitamos nenhuma dessas doações. É um procedimento comum do partido receber doações de filiados e repassar aos candidatos. Apesar de não ser ilegal, os candidatos ligados ao MBL têm zelo pelo dinheiro público e se recusam a fazer campanha com esses recursos. Por esse motivo toda a verba apurada já foi devolvida ao partido e destinada aos candidatos que deveriam tê-la recebido”.

Milton Leite afirmou que não pediu nenhuma doação a funcionários e alegou que os repasses foram feitos espontaneamente. Leite também negou que tenha intermediado qualquer acordo do União Brasil com candidatos. “Jamais houve pedido da minha parte para que pessoa alguma fizesse doação ao partido. Os doadores são filiados ao União Brasil e fazem as doações por livre e espontânea vontade, sem obrigatoriedade alguma. O diretório municipal do União Brasil distribuiu os recursos arrecadados conforme seus critérios”, afirmou o presidente municipal da sigla.

A Prefeitura de São Paulo disse que toda pessoa tem direito de fazer doações a partidos políticos, “desde que respeite a legislação”. “Trata-se de uma decisão de foro íntimo, sem relação alguma com a gestão.”

A coluna havia pedido posicionamento ao governo do estado, mas a resposta foi enviada pela assessoria da Artesp. A agência informou que “não controla o orçamento de seus servidores e que a decisão de realizar doações para candidatos ou partidos políticos é de foro pessoal, e um direito garantido pela legislação, desde que declarado à Justiça Eleitoral”. A Artesp afirmou que “não há qualquer relação entre essa decisão pessoal e o trabalho realizado na Agência Reguladora”.


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