Vídeo foi editado para mostrar Bolsonaro à frente em pesquisa do Ipec

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Esta checagem foi realizada por jornalistas que integram o Projeto Comprova, criado para combater a desinformação, do qual o Metrópoles faz parte. Leia mais sobre essa parceria aqui.

Conteúdo investigado: vídeo de 2 minutos e 23 segundos que mostra os apresentadores do Jornal Nacional William Bonner e Renata Vasconcellos falando acerca dos resultados da pesquisa sobre a intenção de voto para presidente realizada pelo Ipec e divulgada em 12 de setembro. Na gravação, Jair Bolsonaro aparece à frente do ex-presidente Lula.

É FALSO o vídeo com uma reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, que apresenta dados de pesquisa do Ipec com Jair Bolsonaro em primeiro lugar, à frente de Lula. O conteúdo de desinformação inverte os números, exibindo o presidente com 46% das intenções de voto e o petista com 31%, o que não é verdade. Segundo o levantamento (em PDF), na realidade, Lula tem 46% e Bolsonaro, 31%.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Além de manipular o áudio de William Bonner falando sobre o primeiro turno e a avaliação da administração de Bolsonaro, a gravação adultera a voz de Renata Vasconcellos ao apresentar o cenário do segundo turno e ao falar sobre a aprovação da maneira de governar do presidente pelos brasileiros. O material também altera os gráficos exibidos na reportagem.

Diferentemente do que é afirmado no conteúdo verificado, de acordo com o Ipec, Lula tem 53% no segundo turno, ante 36% de Bolsonaro. Sobre a avaliação da administração atual, ela é ruim ou péssima para 45% dos entrevistados, ótima ou boa para 30% e regular para 23%. E, por último, 59% reprovam a maneira de governar do presidente, enquanto que 35% a aprovam.

O Ipec divulgou nota em que afirma que o vídeo é falso e que “está denunciando o conteúdo no Sistema de Alerta de Desinformação Contra as Eleições do Tribunal Superior Eleitoral e no Ministério Público Eleitoral”. O Jornal Nacional  afirmou que a pesquisa Ipec divulgada pelo programa “mostrou o oposto do vídeo adulterado”.

Alcance da publicação

O Comprova investiga conteúdos com maior alcance nas redes sociais. Até o dia 19 de setembro, o vídeo teve 2,1 milhões visualizações, 108 mil curtidas, 11,7 mil comentários e 50,3 mil compartilhamentos.

O que diz o autor da publicação

Como o TikTok não permite o envio de mensagens entre contas que não se seguem mutuamente, o Comprova buscou outras redes sociais do autor do vídeo investigado, mas não encontrou correspondência.

Como verificamos

Após buscar no Google pela palavra-chave “pesquisa Ipec”, o Comprova encontrou quatro verificações, do UOL Confere, da Folha, do Fato ou Fake e do Estadão Verifica, que desmentem a alegação de que Bolsonaro estaria à frente no levantamento do instituto.

O próximo passo foi consultar a edição do Jornal Nacional de 12 de setembro (a partir de 17min09s) disponível na Globoplay, que trouxe a divulgação da pesquisa Ipec. Por fim, a equipe buscou o levantamento no site do instituto e no portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A reportagem contatou o Ipec e a assessoria de imprensa do Jornal Nacional.

Pesquisa Ipec mostra Lula à frente

Ao contrário do que o vídeo falso mostra, Lula lidera a corrida presidencial, de acordo com a pesquisa Ipec divulgada em 12 de setembro contratada pela rede Globo. O petista aparece com 46% das intenções de voto, contra 31% de Bolsonaro.

Rwprodução/Projeto Comprova
Gráfico com informações verdadeiras sobre a pesquisa do Ipec divulgado pelo Jornal Nacional no dia 12 de setembro. No conteúdo investigado, o gráfico foi invertido: onde está o nome de Lula aparece o de Bolsonaro. Fonte: Captura de tela do JN na Globoplay

Em seguida, a jornalista Renata Vasconcellos apresenta números relacionados ao segundo turno. Segundo o Ipec, Lula tem 53% dos votos e, Bolsonaro, 36%.

Reprodução/Projeto Comprova
Captura de tela da Globoplay da edição do dia 12 de setembro do JN

O vídeo investigado também usa os dados apresentados sobre a avaliação da administração Bolsonaro e sua maneira de governar. A pesquisa Ipec mostrou que 45% dos brasileiros consideram a gestão ruim ou péssima, 30% acham ótima ou boa e 23% a consideram regular.

Reprodução/Projeto Comprova
Captura de tela da Globoplay da edição do dia 12 de setembro do JN

Sobre a maneira de governar, os números reais do levantamento são: 59% reprovam e 35% aprovam (e não o contrário, como mente o conteúdo verificado).

Reprodução/Projeto Comprova
Captura de tela da Globoplay da edição do dia 12 de setembro do JN

O Ipec entrevistou, presencialmente, 2.512 eleitores, em 158 municípios, entre os dias 9 e 11 de setembro deste ano. A margem de erro estimada é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos e o nível de confiança é de 95%. A pesquisa foi registrada no TSE sob o número BR-01390/2022.

Mesma tática

Em 30 de agosto, o Comprova publicou conteúdo semelhante ao verificado aqui. Com o título “Vídeo que mostra Bolsonaro à frente na pesquisa Ipec do dia 15 de agosto de 2022 é falso“, a peça usava a mesma técnica para desinformar: a manipulação de áudio e imagens. E também utilizava trecho do Jornal Nacional.

A checagem anterior era sobre pesquisa Ipec divulgada em 15 de agosto, que apontava Lula com 44% e Bolsonaro com 32%, ao contrário do que o vídeo falso apresentava.

Sobre o Ipec

O Ipec, uma empresa brasileira de pesquisas de opinião, mercado e política, foi fundado em fevereiro de 2021, logo após o encerramento das atividades do antigo Ibope Inteligência, que ficou conhecido, principalmente, pelas análises de intenção de voto. O novo negócio é, inclusive, administrado por executivos da extinta companhia.

Segundo o portal InfoMoney, as pesquisas de intenção de voto do Ipec acontecem a partir de entrevistas pessoais a domicílio. Em média, 2 mil pessoas são consultadas para levantamentos nacionais e a empresa é contratada para fazer este trabalho por veículos de comunicação.

Para uma amostra de dados, três critérios são utilizados, conforme detalhou o InfoMoney: no primeiro estágio faz-se um sorteio probabilístico dos municípios que vão compor a amostra, por um método com probabilidade proporcional ao tamanho; depois, é feito um sorteio probabilístico da região onde as entrevistas acontecerão, abrangendo a população de 16 anos ou mais que reside nos conjuntos de quarteirões sorteados; por último, dentro dos setores sorteados, os entrevistados são selecionados através de cotas amostrais proporcionais, que levem em consideração gênero, idade, escolaridade e condição de atividade.

Em cada setor censitário, respeitando seus respectivos perímetros no mapa, os pesquisadores fazem oito entrevistas e todos os dados são coletados em tablets e gravados com dispositivo de geolocalização. Ainda de acordo com o InfoMoney, o Ipec costuma trabalhar com nível de confiança estimado em 95% e margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos sobre os resultados encontrados no total da amostra.

Por que investigamos

O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia, políticas públicas do governo federal e as eleições presidenciais. Com a proximidade da votação, é frequente que as pesquisas eleitorais sejam alvo de peças de desinformação. Conteúdos como o vídeo verificado pelo Comprova, que induzem a uma conclusão falsa a partir da manipulação dos números apontados em uma pesquisa de intenção de voto, podem influenciar na decisão de eleitores brasileiros. A população deve escolher seus candidatos com base em informações verdadeiras e confiáveis.

Outras checagens sobre o tema

O vídeo que adultera trecho do Jornal Nacional sobre a pesquisa Ipec foi desmentido também por UOL Confere, Estadão Verifica, Folha e Fato ou Fake, do G1.

Em checagens anteriores, o Comprova revelou que é falso vídeo que mostra Bolsonaro à frente na pesquisa Ipec do dia 15 de agosto de 2022 e que o Ipec funcione dentro do Instituto Lula. Também verificou ser enganoso post de senador que ironiza resultado de instituto para desacreditar pesquisas eleitorais.

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