“Ainda choramos muito”, dizem ex-moradores de prédio que desabou no DF há 1 ano

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O terreno baldio que, há cerca de um ano, dava espaço para o edifício que desabou na QSE Área Especial 20, Lote 20, em Taguatinga Sul, agora abriga ─ além de um canteiro de obras do prédio ao lado ─ memórias, lamentos e sonhos de moradores que precisaram reconstruir a vida e recomeçarem do zero, após perderem quase tudo na tragédia.

A reportagem do Metrópoles visitou, na sexta-feira (6/1) ─ exatamente um ano após o episódio ─ o local e conversou com alguns moradores que ainda vivem nas proximidades. O prédio foi demolido, cerca de 30 dias após o início do desabamento, em operação conjunta do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal (CBMDF), Defesa Civil e Serviço de Limpeza Urbana (SLU).

Segundo a Defesa Civil, o edifício apresentava diversas rachaduras, esmagamentos de pilares, ferragens expostas nos pilares, desplacamento de elementos construtivos, janelas e portas de aço amassadas, além de estalar antes de ser evacuado e ir ao chão.

Responsável pela organização dos moradores e escalada para a liderança durante o drama, a manicure Cristiane Nascimento, 43 anos, morou, com a família e alguns vizinhos, por 30 dias em um hotel, de Taguatinga Sul, após perder o lar. “O dono do prédio pagou a hospedagem por uma semana, depois foi por nossa conta”, revela.

Logo, o custeio de quatro diárias ─ devido à hospedagem de mais cinco familiares e dois vizinhos ─ transformou-se no aluguel de uma casa há poucas ruas do prédio onde morou por 9 anos.

“Você não sabe o tanto que eu chorei no dia que estavam limpando os escombros, quando vi meu sofá retorcido. A gente ainda chora muito, nunca mais tive uma noite de sono. Dava 3h da manhã, me dava aquela angústia e eu ia até o prédio. O pessoal do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil perguntava o que eu estava fazendo lá. ‘Eu não consigo me desvencilhar disso’, dizia. Eu não conseguia ficar lá no hotel pensando que minhas coisas estavam ali (no prédio) e que os ladrões iriam pegar. A gente ainda tinha esperança de que iria conseguir pegar as coisas da gente”, lamenta.


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O lamento de Cristiane diz respeito aos objetos pessoais dos moradores, que ficaram dentro do prédio. Depois de ruir parcialmente, ninguém foi autorizado a voltar ao local para tentar resgatar absolutamente nada, por isso de colapso total da edificação.

Em cerca de dois meses, o apartamento, que tinha três quartos, tornou-se uma casa de três cômodos nos fundos de um terreno para abrigar a família que passou a viver com auxílio de objetos, roupas e dinheiro doados.

“Eu não queria morar em quitinete, que era o que eu estava achando na época. Eu tenho família, não tinha como morar em uma. A minha irmã, que viva comigo na época, tinha câncer. Então eu não poderia alugar uma casa que comportasse minha família mais ela e o filho dela. Minha irmã saiu sem a cinta que ela usa, sem os medicamentos para o tratamento e sem a receitas médicas. Ela recebe um salário mínimo de auxílio doença. Não tinha como arcar com a despesa de montar uma casa e tudo”, conta Cristiane.

Largados, juntamente a uma imagem de Jesus Cristo e da Sagrada Família, os álbuns de fotos ocupam parte do raque doado que hoje ocupa a sala da mulher. Os objetos são os únicos itens que a manicure conseguiu resgatar do antigo apartamento. “Hoje, era para eu estar em uma situação de tranquilidade porque eu trabalhei durante muitos anos para poder construir um mundo dentro da minha casa para mim e meus filhos. Antigamente, eu via um raque e eu queria comprar, hoje não. Isso daqui (apontando para o raque na sala) é doação. Eu olho para isso aqui e nem arrumar ele eu arrumo”, disse.

Para recomeçar, a manicure utilizou parte do dinheiro que recebeu de uma herança e comprou um salão para seguir trabalhando. “Comprei um salão, mas agora não está indo muito bem”, explica. Além de celebrar uma missa pelo quinto aniversário de morte da mãe, nessa sexta (6/1), Cristiane também irá aproveitar a ocasião para orar por um ano do desabamento do edifício.

Somando todo o dinheiro arrecadado, Cristiane dividiu R$ 435,67 para cada uma das 23 famílias residentes do antigo edifício. Em função de um auxílio vulnerabilidade, conseguiu receber mais R$ 400. “Tive que vender o carro que paguei R$ 12 mil por R$ 1,5 mil para um ferro velho porque o DUTI estava lá (no prédio) e eu não tinha transferido o carro”, lamenta.

Na época, a ex-moradora entrou na Justiça contra o dono do edifício e aguarda resultado do processo. “Algumas pessoas fizeram acordo de R$ 5 mil, outras receberam R$ 7 mil. Eu não aceitei”, explica.

Procurada, a filha de Edilson Albuquerque, proprietário do prédio, disse, em nota, que aguarda decisão judicial para definir o futuro do imóvel. Amanda Albuquerque não quis comentar além disso.

“A gente não quer viver com as coisas dos outros”

Moradora do prédio que desabou desde 2018, depois de mudar-se de Goiânia, a diarista Cristivânia Souza, 44, mudou-se para um edifício na esquina da mesma rua dois meses depois. Desde que alugou o novo apartamento, ainda dorme em um colchonete no chão.

“Em vez de trabalhar para me sustentar e ter mais uma vida de lazer, tenho que parar e comprar móvel. De aluguel a gente sempre morou, não é dificuldade, mas tudo não cabe no orçamento. Minha casa ainda está quase do mesmo jeito que eu entrei. Era colchonete, um fogãozinho e um armário. Consegui uma geladeira uns dias para trás. Agora é material escolar, uniforme, livro, carteirinha”, lamenta.

A diarista relata que ficou alguns meses sem conseguir trabalho, mas que ultimamente tem sido chamada para realizar mais serviços de faxina. “Passava dias deitada, sem ter o que fazer. Agora que eu estou com a semana cheia”, explica Cristivânia.

Dividindo o novo lar com três filhos, a diarista acredita ser a única moradora que conseguiu resgatar os documentos pessoais antes do desabamento. “Até hoje, a gente usa as doações. Roupa, lençol de cama, toalha, prato, tudo é de doação. Mas gente não quer viver com as coisas dos outros. Eu quero comer bem”, reforça a diarista.

Cristivânia também aguarda decisão judicial sobre o futuro do imóvel e também recebeu auxílio vulnerabilidade no valor de R$ 400.

Veja prédio demolido e momento que ele caiu:


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Vistorias nos últimos anos

Procurada, a Subsecretaria do Sistema de Defesa Civil (Sudec) informou que, nos últimos dois anos, realizou 697 vistorias em edifícios na capital federal. Em 2021, atuou em 291 vistorias, sendo seis sem manifestação patológica ─ tipo de solicitação de vistoria, onde não é encontrado qualquer problema estrutural. Já, em 2022, verificou 406 ocorrências, sendo 67 sem danos estruturais.

Segundo o órgão, os principais problemas encontrados são trincas, rachaduras, exposição de ferragem, abaulamento ou torção, degradação, corrosão, flechas, dentre outros, em vigas, lajes e pilares. O monitoramento é realizado a partir de ações preventivas, de socorro, assistenciais e recuperativas, destinadas a evitar ou minimizar desastres, apoiando as ações dos órgãos de emergência, que realizam as primeiras intervenções.

Além do prédio que desabou no início do ano passado, a Defesa Civil detalhou que, ainda em 2022, no Setor Hoteleiro de Taguatinga, foram identificadas várias manifestações patológicas num prédio composto por dez pavimentos, sendo ocupado até o 6° andar.

No térreo existem 13 lojas, das quais seis estão fechadas e sete ocupadas, ofertando comércios e serviços. Neste caso, foi feita notificação para fins de reparo e solução dos problemas. O imóvel permanece em monitoramento.

Também no mesmo ano, em Águas Claras, um shopping passou por vistoria após solicitação feita pela engenheira da edificação. Foram localizados danos pequenos em dois pilares na região da garagem e foi descartado o risco de desabamento.

No ano de 2021, houve o desabamento parcial da parede de uma obra embargada no Riacho Fundo I sobre uma residência, atingindo o telhado da sala e o quarto.

Em 2019, uma edificação multifamiliar localizada em Ceilândia Norte, com 27 anos e sem nenhum tipo de manutenção preventiva ou corretiva composto por seis andares, apresentou diversos problemas estruturais como, por exemplo, o desplacamento de elementos construtivos, com apresentação de ferragens em processo corrosivo de vigas, pilares de sustentação e laje, marcas de infiltração, trincas, fissuras. O local permanece em monitoramento.

Em 2017 ocorreu o desabamento parcial de um prédio em Vicente Pires. Uma pessoa morreu no local. Após o fim das investigações e perícias o prédio foi totalmente demolido.

No período compreendido entre 2017 e 2022, foram demolidos dois imóveis: um no setor de oficinas, em Taguatinga Sul, e outro em Vicente Pires.

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