Minissérie sobre incêndio na boate Kiss desperta comoção e revolta

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A minissérie “Todo dia a mesma noite”, que estreia na Netflix, nesta quarta-feira (25/1), parte da vida cotidiana de muitos jovens: ir a uma balada na noite de sexta-feira. Seria uma ação corriqueira se eles não tivessem ido à boate Kiss, em Santa Maria (RS), no dia 27 de janeiro de 2013, quando aconteceu o incêndio que matou 242 pessoas, a maioria jovens.

A produção, dirigida por Julia Rezende, é inspirada no livro “Todo dia a mesma noite”, da jornalista Daniela Arbex, que tem uma abordagem inicial diferente. Daniela parte de um relato de um médico que pressentiu que aquele dia estava estranho devido ao número baixo de ocorrências.

“O livro da Dani é superforte. Mas para o audiovisual precisávamos de uma estrutura que ainda não sabíamos qual era”, conta o roteirista Gustavo Lipsztein em entrevista ao Metrópoles. “Quando vi a informação dos pais sendo processados, percebi que tínhamos ali uma história, uma luta por justiça — e que ainda não foi feita.”

Em 2022, a 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) anulou o júri que condenou os quatro réus do caso da boate Kiss.

Uma noite de 10 anos

Daniela lançou o livro em 2018, cinco anos depois da tragédia. Na minissérie de cinco episódios, ela atua como consultora criativa e entende que a obra audiovisual é uma atualização do seu livro. “Em todo esse tempo, eu não me afastei dessa história”, afirma a autora. “Construí uma relação com essas pessoas e acompanhei tudo muito de perto”.


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Para a jornalista, sua contribuição veio desse conhecimento profundo das personagens retratadas — as quais ela fazia questão de serem apresentadas com cuidado e respeito. A diretora Julia Rezende entende o suporte de Daniela como fundamental para trazer a delicadeza e a importância de mostrar que as 242 vítimas não são um número.

“Cada uma dessas vítimas tinha família, história e sonhos. Fomos em busca da essência dessas personagens a fim de criar, no espectador, empatia por aqueles jovens”, explica Julia. “Tanto na dramaturgia quanto na direção, nossa preocupação era tornar a série palatável, porque poderia ser insuportável se fosse feita de outras formas.”

A dor que nunca cessa

Os primeiros episódios realmente beiram o insuportável. Assistir às cenas daqueles jovens cheios de sonhos e vida sabendo do final trágico que os espera dá ao espectador melancolia e tristeza. O roteiro é inteligente ao trazer um leque de personagens com histórias de vidas que se aproxima da realidade de diferentes pessoas.

Quem não foi atravessado pela parentalidade talvez tenha dificuldade de imaginar a dor insuportável de um pai enterrar seu filho. Mas todo mundo já foi (ou é) jovem e pode se sentir conectado com a história familiar — ver seus pais ou imaginar o seu futuro interrompido por uma tragédia.

A partir do terceiro episódio, o sentimento de tristeza dá lugar ao de revolta e indignação. O foco da tragédia muda para a luta dos pais por justiça pela morte dos filhos, apresentando desdobramentos surreais que talvez poucos acompanharam.

Além da morosidade do processo parecer uma afronta àquelas pessoas devastadas pelo luto, saber que alguns familiares das vítimas do incêndio na boate Kiss foram denunciados pelo Ministério Público por crime de calúnia deixa o espectador enfurecido.

Os promotores Ricardo Lozza, Joel Dutra e Maurício Trevisan se sentiram ofendidos por alguns cartazes colados nas ruas de Santa Maria com suas fotos e a frase: “o ministério público e seus promotores também sabiam que a boate estava funcionando de forma irregular”.

O exercício da empatia

O ator Leonardo Medeiros, que representa um dos pais em “Todo dia a mesma noite”, tem uma recordação muito viva de quando soube da notícia do processo dos familiares. “Fiquei muito chocado na época, com um sentimento de revolta”, conta.

Tanto Leonardo quanto o ator Thelmo Fernandes, para viverem suas personagens, foram buscar inspiração na paternidade — Leonardo tem dois filhos e Thelmo, um.

“O processo de empatia com a minha personagem foi muito relacionado com a perda eventual dos meus filhos. Foi a única maneira de vislumbrar aquela qualidade de sofrimento de uma maneira delicada. É muito ruim lidar com esse tipo de emoção”, explica Leonardo.

Débora Lanm, que interpreta a mãe de uma das vítimas, não tem experiência com a maternidade na vida real — o que não a impediu de mostrar, na série, sentimento e força de uma leoa quando sente uma cria em perigo.

“A história tem uma urgência tão grande de ser contada que o trabalho já ganha uma força por si só”, diz a atriz, que também avalia que o resultado vem de uma delicadeza da direção: “foi um set diferente, muito afetuoso. Sabíamos onde estávamos pisando e que o afeto era necessário.”

Arte a serviço

A fim de não fazer os moradores da cidade reviverem o trauma da tragédia, a série não foi filmada em Santa Maria. Para trazer o clima gaúcho, algumas tomadas externas foram gravadas em Bagé, divisa do Rio Grande do Sul com o Uruguai.

Os atores também não tiveram contato com os pais das vítimas da boate Kiss. Participaram, porém, de uma palestra sobre luto que reconhecem como fundamental para construção de seus personagens.

“Ninguém é capaz de julgar o quanto deve durar o luto e a dor de uma pessoa. Entender isso foi transformador e fundamental para construção da personagem”, resume Thelmo.

Direção e elenco entendem a produção, que marca os 10 anos da tragédia, como serviço para que a história não seja esquecida e a justiça, feita. “É o nosso trabalho de ator na sua maior grandeza porque está a serviço de algo”, conclui Débora.

Algo muito grande para quem perdeu um familiar querido e há 10 anos espera por justiça. Algo maior ainda para um país que ainda não consegue lidar de frente com seus traumas.

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